O Ladrão de Palavras


22/04/2008 14:29

UM HERÓI PERDIDO EM SOTERÓPOLES

Por Claudio R.

Nenhuma cidade do país tem o marketing turístico que a capital do meu estado. Uma das maiores cidades do país, e com a fama de ser a terra da alegria e do axé. Não nasci e nem sou daqui, mas minha árvore genealógica, por parte de mãe, tem suas raízes fincadas nessa terra de chão pintado de preto pela própria natureza.

Aqui é um lugar muito bonito, lindo de morrer! Ops! Aqui se morre bastante e vive-se com medo de morrer. Não é só a terra de cantos, encantos e axé, o baiano é temeroso em relação a sua vida, pois os crimes de mortes são iminentes a cada esquina ou beco. E por assim dizer, beco aqui é o que mais tem, mais até do que as belas paisagens do farol da Barra e/ou de Itapoã.

Nunca gostei de Salvador, por ser uma cidade agitada, muito maior do que as minhas expectativas e minha invulnerabilidade. A amplidão da cidade, que não é tão imensa assim, não é compatível com os meus super-poderes, o que, neste ponto de vista, configura-se como uma fraqueza para o meu peito de aço. Por não suportar a disputa, Salvador nunca foi um lugar atrativo aos meus anseios de super-homem. Aqui há muitos mais heróis do que o meu conhecimento pode abarcar, há mais outros iguais ou melhores que eu. E como sou um herói solitário, não dá pra montar uma liga da justiça com eles.

Além de heróis, há heroínas. Não há como negar que as mulheres daqui, são mais bonitas que as de qualquer lugar do mundo. A miscigenação é mais forte e mais evidente. Principalmente no ponto de vista dos turistas. Homens e mulheres do lado de cima do Equador se interessam por gente da minha cor azeviche. Talvez pelo contraste lindo ou no azo de montar um Yn Yang étnico. Nisso eu poderia achar uma maravilha, já que levaria vantagem sendo um representante ímpar da pele de ébano. Todavia, não tenho saco pra ser babá de babões e babonas cheios de grana e achando que pode comprar de tudo.

O que não é nada bonito são os meninos, as meninas e os que não se pode definir, literalmente, que se oferecem aos montes para os turistas cheio de dólares e amor pra dar.

Terra da alegria e festa! Rola festa em todo lugar, mas temos que ser abonados financeiramente para participarmos. A maioria dos lugares são imensamente distantes uns dos outros, e estas distâncias ficam maiores quando olho com a minha visão de “raio X” de super-herói do interior. O costume de andar a pé aqui fica a cargo de desavisados ou empobrecidos da disparidade social que aqui se encontra. Por ser um herói naturalista, não consigo entender como tantos carros podem levar tão poucas pessoas.

Herói de verdade anda de bicicleta, não polui a natureza e nem congestiona o trânsito. Contudo, a idéia de que o baiano é um povo estafermo e ocioso não é vista por aqui. Baiano anda de carro com apenas um passageiro e está sempre com pressa, é ignorante no trânsito e mal educado. Faixa de pedestre é um lugar para se parar os carros com apenas um passageiro e ciclovia é lugar de qualquer coisa, exceto bicicletas. Aqui, no trânsito, cultiva-se a cultura do “primeiro eu, segundo eu e depois de mim sou eu”.

Ah, mas como diria Vinícius, o poeta, existe a tarde em Itapoã pra compensar. As praias daqui são realmente maravilhosas e de ponta a ponta há locais de banhos. Se tiver que escolher alguém pra “ficar”, vá as praias, há baianos, baianas e turistas de todo tipo e, em sua maioria, lindos. Mas cuidado com os pés, pois essa gente que gosta de se bronzear, também gosta de sujar e deixar vestígios da sua passagem por esta área.

Ainda, se você não for rico o suficiente para vir de carro à Salvador, ou alugar um carro de bacana, há o grande risco de levar baculejo (ser vistoriado com apalpações quase sexuais pela polícia) quando quiser sair à noite. Não sei porquê a polícia daqui acha que bandido só anda de carro popular.

– Hei, tira a mão daí, essa é minha arma de salvação da humanidade. Claro que não é de fogo! Aliás põe fogo, mas é de uso exclusivo de mulheres, o que não é seu caso. Não preciso de armas, sou um super-herói... E me desculpe por não está andando com um carro de cem mil ou voando com minha capa vermelha.

Eu não poderia esperar muito de um lugar onde o Bairro da Paz vive em guerra. Venha a Salvador, mas seja rico, mal educado no trânsito, apressado em todos os afazeres e curta bastante ir à festas e pegar engarrafamento na ida e na volta. Pois, O Salvador daqui é puro marketing turístico. Eu vou bater minha capa daqui para um lugar onde a única coisa discrepante seja o surrealismo de Salvador Dali.

Claudio R. é o escritor dO Ladrão de Palavras.
enviada por O Ladrão de Palavras






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