O Ladrão de Palavras


07/05/2008 16:28

CADA UM COM OS SEUS PROBLEMAS

Por Claudio R.

Cada um sabe a medida do seu problema, isso é algo pessoal e quase sempre intransferível. Problema é o mal que assola a humanidade desde que o homem macaco resolveu descer das árvores e morar numa caverna com sua amada mulher macaco e seus pequenos meninos macaquinhos. Naquele tempo, a dimensão dos problemas não era suficientemente grande, pois não existia cartão de crédito pra sua mulher macaco gastar com bananas num shopping center selvagem, não existia o aluguel da caverna pra pagar e nem o IPVA do carro. Entretanto, o homem das cavernas também tinha problemas que pra eles eram assaz complicados de se resolver, e muitos não havia resolução alguma, como a ameaça iminente de animais e as intempéries.

O que quero explicitar é que problema todo mundo tem, e só quem tem sabe a dimensão do mesmo. Eu, como artista que sou, tenho a mania complicada de exacerbar os meus problemas, dando dimensões desmesuradas a acontecimentos que, para outras pessoas, seriam facilmente solucionados. Assim, passo mais tempo incomodado com o problema e quando a solução aparece, já estou tão estressado que não colho os louros dela.

A preocupação não resolve os problemas, isso é frase feita e não funciona pra quem exige um mar de rosas como padrão de vida. Meu maior problema, com perdão do trocadilho, é não aceitar uma vida mais ou menos e nem que os acontecimentos fujam ao meu controle. Além disso, ainda tenho a ignominiosa fantasia de que os meus problemas geralmente são bem maiores que os dos outros.

De acordo com a minha teoria de cada um com os seus problemas, se eu fosse o superman, meu maior problema seria nada mais que salvar a humanidade e ainda me preocupar com Lex Luthor. Infelizmente eu não sou e os meus problemas consistem, basicamente, em coisas simples solucionáveis, todavia, tenho um lema e ele diz o seguinte, “não existe problema que a falta de mulher não consiga piorar”. E uma coisa sempre atrai a falta da outra ou em ordem contrária. Entretanto o assunto aqui é outro e fiquemos nele...

O que para muitos pode ser uma tempestade, para outros simplesmente um copo d’água. Recordo-me agora quando tive um acidente de moto e estava acompanhado de um amigo, enquanto estávamos os dois no chão, tínhamos uma grande preocupação: “Quanto tempo vamos ficar sem treinar?” Muitas pessoas estariam preocupadas com fraturas, com luxações, mas nós dois tínhamos outro tipo de problema, para nós dois, ficar sem andar seria muito mais degradante que para uma pessoa comum que apenas teria a dificuldade de locomoção.

As vezes fico pensando o quanto não deveríamos nos preocupar com problemas, já que esta atitude não funciona na resolução do problema, mas não dá pra ser inerte e não se preocupar. Todavia, a preocupação têm que ser dosada a níveis que atrapalhe muito pouco o desenrolar da vida. Por exemplo, alguém preocupado com a morte, não pode deixar que essa preocupação atrapalhe o seu bem estar.

Cada um tem uma característica e um modo de viver, até as crenças interferem na resolução e na tranqüilidade diante do problema. Quando alguém me pergunta como é ser ateu, eu costumo dizer que “ser ateu é não ter ninguém para depositar os seus problemas, eu costumo resolver os meus sozinho”. Sendo ateu, eu não preciso me preocupar com desígnios celestiais, ira divina, inferno, etc., mas também não tenho o alento dos teístas que acreditam que serão ajudados por alguma força sobrenatural.

Outra coisa que falta em mim é o fanatismo futebolístico, observo quando os torcedores se vestem com as cores do seu time, vestem seus filhos, pegam bandeira e partem para o estádio pra torcer. Naqueles instantes, eles apenas estão preocupados com o seu time, só isso interessa, daí eles se esquecem da conta do cartão de crédito, do patrão chato que o espera na segunda-feira, a prestação infinita do carro pra pagar, nada disso tem valor, o importante é o time que está jogando. E na segunda-feira, mais importante que tudo isso, é o resultado e a zombaria com os colegas que obtiveram vitória ou derrota.

Daí, eu, do alto da minha sábia filosofia de botequim, afirmo que ser meio bobo é muito bom para o bem estar. Talvez se eu cresse em forças sobrenaturais, fosse um monge tibetano ou torcesse para algum time com toda veemência que vejo por aí, eu não ficaria preocupado com a falta que o sexo e o dinheiro faz na vida de um homem.

Claudio R. é escritor e esportista, mas infelizmente o esporte dele consiste em torcer pra ele mesmo.
enviada por O Ladrão de Palavras






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