O Ladrão de Palavras


16/05/2008 14:23

POR PROCURAÇÃO

Por Claudio R.

Meu amigo não sabe, tampouco faz idéia de que eu estou te escrevendo esta missiva para falar sobre ele. Na verdade, por ele ser meu confidente e grande amparo nas horas de agonia, ele usou do mesmo subterfúgio à tristeza e remeteu-se a falar do romance, ao qual eu intitulei de filme B, meloso e bobinho.

Recordo-me muito bem do início do relacionamento de vocês, ele fazendo segredo da mulher que o fazia sorrir diferente e chegar mais tarde em casa. A curiosidade nunca me foi uma característica peculiar, todavia eu queria saber quem o tirara daquela quase depressão e ansiedade em se apaixonar. E realmente se apaixonou, o sorriso era notório, revelador, até a nossa empregada estranhara o jeito diferente que ele acordava. Entretanto, o mistério durou até o dia que ele te levou lá em casa, e que tu não deste a ele o privilégio de deitar com ele.

Tu és uma mulher bonita, digna de aplausos e que, palavras dele, “Deus fora bastante gentil contigo”. Concordo plenamente com as palavras dele, pois a tua compleição invejava a todos que nos cercavam.

Perdão por está sendo um tanto indiscreto, mas é conveniente falar que muitas vezes ouvi o sexo que faziam. Particularmente os teus gritos, que me pareciam ser sinceros e realmente estava sentindo prazer. Meu nobre amigo se orgulha de ter participado dos teus gozos inúmeros e inéditos. De certo que tu acompanhavas a viagem lasciva que ele te levava.

Ele me disse que dói saber que está longe e ainda por cima com outro homem embora ele também esteja gozando do mesmo pérfido direito, é inaceitável, para ele, a vida sem ti. Ainda, tratou de se esmerar em dizer que não conseguirá te esquecer por completo. Disse que tudo e qualquer coisa trazem lembranças tuas. Interessante o rol de coisas que ele faz alusão ao tempo contigo. Fazer a barba, segundo ele, lembra um dia que tu e ele passastes o dia juntos e ao fazer a barba, mal feita por sinal, tu o ajudou a refazê-la.

Eu não sou adepto destes sentimentos, nostalgia atrapalha a minha invulnerabilidade. Podes até me chamar de insensível, mas eu não posso admitir que estas coisas permeiem o meu cotidiano. É estranho ao meu corpo ser obrigado a chorar toda vez que eu ouvisse o nome da cidade de alguém que eu convivi. Ainda, sinceramente eu não teria nenhuma compaixão em me desfazer de coisas que dividi prazeres com uma mulher.

Desculpe-me por está falando estas coisas e parecer sarcasmo, mas é o que eu acredito e pratico, diferentemente do meu nobre amigo, sou adepto da praticidade, inclusive no meio sentimental. Como exemplo, é bem mais fácil tentar te esquecer com outras mulheres do que ficar choramingando pelos cantos. Mesmo eu não tendo encontrado nenhuma mulher que gritasse, ou melhor, urrasse de prazer como tu, saberia como mudar essa situação inquietante.

O que dizer do dia em que resolvestes inovar no sexo e ele te possuiu pela reentrância de pouca usança. Eu ouvi, não de propósito, mas não pude deixar de apurar a audição no primeiro sussurro propondo o ato. O invejei, mas respeitosamente fiquei apenas na inveja. Tu foste motivo de muitas corridas minha ao banheiro, não resistia tentando imaginar o que teus sussurros significavam e para onde os teus movimentos estavam te levando. Por já ter possuído a mulher de alguns amigos e tu tenhas despertado desejo em mim, antes mesmo de conhecê-lo, eu não me sentiria à vontade para te ter nos meus braços. A paixão dele é tão grande que incomodaria até o mais tarado dos homens que já existiu.


Não raro o ouço dizer que sente mais a tua falta do que qualquer coisa vital. Para mim não é salutar nutrir paixão por alguém cheia de suplementos como marido e filhos. É esquisito esperar, pois mulheres não aproveitam o bom da vida, simplesmente decidem a vida e, infelizmente, não coube a ele a parte decidida por ti.

Contudo o romance acabou e ninguém sabe realmente por que. Ele me diz que tem certeza que jamais te esquecerá e que tem muito medo disso. Inclusive o temor de num dia qualquer do seu futuro, na tranqüilidade de sua decrepitude, ele não consiga enxergar validez nos atos da sua vida amorosa e assim não hesite em dar fim ao próprio sofrimento com a morte do corpo, pois a alma, acertadamente continuará sofrendo por não está contigo. Eu acho tudo isso uma grande tolice, mas eu não estou apaixonado para entender destas coisas, no entanto, ele...

enviada por O Ladrão de Palavras






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