O Ladrão de Palavras


10/06/2008 12:03

A MULHER DO PORTO

Por Claudio R.

Quando eu era criança, morava próximo ao cais do porto e era ali que eu costumava brincar. Vivia saltando do píer e muitas vezes nadava até próximo aos barcos . Sempre que eu chegava da escola, corria pra lá e ficava a dar meus mergulhos e depois conversando com um homem jovem na faixa dos vinte e poucos anos. Este chamava-se Gael, era muito conhecido por seus causos e “mentiras” fantasiosas que costumava contar. Aquilo ajudava eu e os meus amigos a passar o tempo e também nos alegrava bastante. A vila era pequena e servia apenas de descanso para alguns velhos marinheiros em seus trajetos por mar aberto.

Ali no cais apenas uma coisa era mais agradável que Gael, a figura imponente de vestido colorido esvoaçante e cabelos idem. Ana Sodeñas, a mulher mais bonita da vila! Não havia ninguém lá que não achasse ela linda. Inclusive nós, uns meros pirralhos em nossas idades pré púberes e que vivíamos o sonho de um dia ser beijado por Ana. Entretanto isso não seria possível pois, por sua vez, a exuberante Ana era a namorada de Gael. Além de mentiroso, todos o chamavam de sortudo, por conseguir ganhar o coração cobiçado dela.

Eu e meus amigos ficávamos olhando pra Ana numa paixão lúdica e invejando Gael. A nossa inveja infinitamente desproporcional à dos pescadores amigos de Gael. Muitas vezes, estes costumavam a olhar acintosamente para ela, causando certo desconforto em Gael, mas ele geralmente tirava de letra aquela situação.

Gael sempre tinha um bom causo na ponta da língua e eles se diversificavam ainda mais quando ele ia pescar. De lá sempre trazia, além dos peixes, uma boa estória pra conta. Algumas vezes era um grande peixe que quase virou o barco na tentativa de fugir da sua rede, noutras vezes piratas atentaram contra ele e muitas outras quimeras de bom coração.

Por não ter perspectiva financeira ali, Gael sonhava em ir morar numa cidade maior onde pudesse ganhar dinheiro e ter uma vida cheia de regalias com sua princesa brejeira. Por conta disso, inventando histórias dos lugares que existiam lá fora, além daquele imenso mar que nos rodeava. Ninguém sabia ao certo o quanto daqueles lugares existiam realmente e o quanto era retirado da mente fértil dele. A riqueza de detalhes nos deixava ainda mais curiosos para retomar os papos nos dias subseqüentes. Mas era só Ana chegar para sermos preteridos, os olhos de Gael brilharem como duas bolinhas de gude, a conversa com os guris cessar e a sua boca ser usada apenas nos beijos cálidos com ela.

Ana não era uma mulher pra viver ali, esta era a frase de todo homem que via nela uma princesa. Até eu, um pequeno infante, pensava assim. Todavia, o homem que ela escolhera para príncipe não tinha condições construir um castelo ali, tampouco leva-la consigo para outro lugar. Foi aí, então, que ele resolveu partir dali em busca de melhoria financeira, mas prometendo voltar.

Lembro-me com clareza este dia, foi tocante. Além do amor por Ana, ainda tinha o fato de que Gael era um cara bacana e alegrava a meninada da vila. Unido a isso, sobrepondo a nossa saudade pouco valorosa, o semblante choroso de Ana que trajava um vestido branco com renda nas barras, diferentemente de todos os outros coloridos que usava. Ela parecia que acabara de vir dum enterro e o defunto era o seu ente mais querido.

- Ana, meu amor, não chore. Eu juro que vou voltar... – As lágrimas desciam do rosto de Gael, estas transmitiam a veracidade daquele amor. Era a demonstração da certeza de que aquela era a primeira vez que ele falava a verdade. Enquanto Ana o olhava num pranto incontido e dizia:
- Eu choro, meu amor, não posso ficar sem você, não me abandone.
- Não é abandono, Ana, estou apenas indo buscar uma melhora pra nossa vida, logo voltarei pra te buscar, me espere. – Aquilo não era qualquer promessa, era uma promessa verdadeira. Gael realmente iria voltar, qualquer um que o visse falando acreditaria.
- Podem passar milhões de anos, todos os dias da minha vida serão teus, Gael. Eu vou te esperar, nem que isso custe a minha vida, vou te esperar, vou amar-te pra sempre.
- Não se preocupes, Ana, eu vou está contigo no meu coração, me aguarde.

Quando Gael entrou no barco, o choro de Ana silenciou, ela agora soluçava e punha as mãos no rosto. Ana saiu do cais e foi pra casa. Nós ficamos ali e eu fui pra casa contar pra mamãe sobre Gael.

Mamãe era uma das pessoas que chamava Gael de mentiroso, então, supunha-se que ela não gostava muito dele. Quando eu falei da cena no porto, ela disse que não passava de baboseira e emendou.
- Logo, logo, essa menina vai está de namorico com outro rapaz daí da vila, do jeito que ela é faceira, não dou um mês. E o Gael, quando disse que vai voltar, contou mais uma mentira.

Ledo engano de minha mãe. Ana pretendia permanecer fiel a Gael por toda eternidade se fosse preciso e este iria voltar.

Passei mais dez anos morando na vila, logo mudei-me para capital no intuito de estudar. Naqueles dez anos que procederam a ida de Gael, Ana manteve-se fiel. Por estarmos crescendo, tendo nossos próprios amores, nós logo esquecemos de Gael e sua Ana.

Eu passei 05 anos fazendo faculdade e mais outros 03 ficando rico numa multinacional do petróleo. Praticamente esqueci da pequena vila em que nasci, exceto pelo fato de minha mãe ir lá todos os anos nos dias dos mortos colocar flores no túmulo de meu avô.

A minha vida melhorou bastante, não fiquei milionário, mas o meu patrimônio me dava o luxo de poder comprar um grande barco de passeio. Num destes passeios em mar aberto, um princípio de maremoto quase virou nosso barco, nós temíamos por nossas vidas, por sorte e peça do destino, uma corrente marítima nos levou para a minha vila natal. Estava com minha namorada e nós, juntos com a tripulação, resolvemos aportar.

Pulei do barco e fui nadando até o cais, recordando os velhos tempos de criança. Era noite, um sábado, eu me lembrei que os navios de passageiros só aportavam nos dias de domingo. Quando comentei com minha namorada esse detalhe, ela riu achando completamente absurdo a idéia de só existir esta possibilidade de transporte.

Fomos caminhando em direção a uma velha e única pousada da vila. Nosso trajeto foi interrompido por uma mulher que nos parou e disse: - Amanhã é domingo, o barco chega amanhã e vou por meu vestido branco para que ele não se confunda.

A mulher falava rápido, eu não entendi direito e pedi para ela repetir, ela continuou:
- Eu envelheci, já se passaram muitos anos, não sou mais aquela jovem, meus cabelos estão brancos. Mas ele vai reconhecer o vestido branco de renda na barra.

Segui pra pousada e não dei muita atenção à história da mulher, mas fiquei rememorando tudo que eu vivera e acabei lembrando quem era a mulher. Um estalo! Ana Sodeña, agora uma mulher madura de quarenta e poucos anos, com a pele envelhecida do sol e do destrato consigo mesma.

No jantar eu procurei saber sobre ela e um garçom me contou o que ele sabia, o que não seria muito, haja vista que ele não tinha idade para ter visto a história completa, mesmo assim suas informações foram de grande valia.

- Ela é conhecida como a louca do porto... Vive nas redondezas do cais, todos os domingos ela põe um vestido branco dizendo que um homem vai voltar. Dizem por aí que já fazem mais de 20 anos que isso acontece... Já tentaram levar ela para o manicômio e tudo, mas ela sempre foge e vem pra cá. Toda vez que chega um barco sem o homem dela, ela fica em prantos, dá até pena, mas isso é coisa de doido mesmo, não podemos fazer nada.

“Não podemos fazer nada”. Esta frase ecoou por vários minutos em minha cabeça. Não era coisa de doido, era impressionante o que havia acontecido, Gael não havia voltado e Ana havia esperado como prometera. Eu procurei saber sobre o que havia acontecido, mas ninguém tinha notícias do que acontecera com ele. Fiquei triste por saber que aquela história de amor não acontecera como pretendiam.

O amor sobrepôs todas as outras necessidades de Ana, ela ficou só por todos aqueles anos esperando por Gael que nunca voltou. Sem consegui esquece-lo, ela transformou a lembrança do amor vivido numa esperança imortal. Mas o que teria acontecido Gael?

Baseado no letra da música de FHER OLVERA - En muelle de San Blàs.

enviada por O Ladrão de Palavras






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