O Ladrão de Palavras


13/06/2008 10:12

SONHANDO NA CHUVA

Por Claudio R.

Ele se comprometeu em se comportar com cavalheirismo e só fazer o que ela quisesse. Nada de mão naquilo e o mais improvável seria aquilo naquilo. Apenas um encontro de corpos com resquícios de toques na alma. Um enlace com vestes fraternas que não convinha à fama dele e que ele nunca pretendera.

Nela havia um desejo oculto, o qual ela não admitia a possibilidade de explicitar, principalmente com ele, um homem sem valor e desmedidamente amoral; de passado lúbrico, aliás, passado, presente e futuro. Não seria amor ou seria apenas amor. Seria apenas paixão, mas paixão é muito para ser tratada como “apenas”. A ousadia lhe era peculiar, mas ele havia prometido que não a usaria, ao menos que o anelo não pudesse se contiver na sua promessa.

O cenário seria uma noite, um crepúsculo, melhor dizendo. O céu avermelhado pelo pôr do sol no horizonte, a noite caindo pelo véu da lua minguante e a imponência da natureza ao seu redor. Todavia, o vermelho amarelado deu lugar a um azul acinzentado e onde deveriam enxergar estrelas e uma lua morrendo ás mínguas, restaram nuvens que denunciavam o advento duma tempestade.

Ele amava a tempestade! Os raios cortando o céu, o estrondo do trovão e a certeza de que aquilo tudo era bem maior que ele. Enfim, ele via poesia naquilo. Enquanto, ela amava a chuva e a idéia lúdica de correr se molhando como crianças. Enfim, ela via inocência na chuva.

Eles se olhavam amistosamente, sorriam infantes, bobos. A chuva molhava fortemente, o frio os tomava pelas mãos, a escuridão encobria o desejo incontido dele e despertava o dela. As mãos dele começavam a enrugar, os joelhos tremiam e os dentes idem. Ela estava completamente encoberta pelas vestes da inocência e a pureza, intocada pela lascívia e protegida pela promessa dele de não exceder os limites da alma. Havia duas opções para dizimar o frio que lhes acometiam: abraçarem-se num enlace tórrido ou correrem feito crianças distraindo-se com a tempestade. Optaram pela segunda, correram e, numa brincadeira adolescente, um tentava pegar o outro. Fugindo dela, ele caiu estatelado no chão e ela tropeçou estabanada caindo sobre ele.

Ainda extasiados da brincadeira, eles se abraçaram e, esquecido do que prometera, ele a beijou, abraçou e torridamente permaneceram agarrados ali. Seus corpos rolavam nas poças formadas pela tempestade sob qual estavam expostos.

Num resquício do cavalheirismo que não lhe era peculiar quando se tratava de instintos humanos, ele levantou-se e a levantou em seus braços. Eles se olharam desconsertados, voltaram a sorrir e a se beijarem sofregamente.

O passado não lhes importava naquele instante, o futuro não ameaçava tal felicidade e os céus não se sentiam no dever (tampouco direito) de perturbar o que eles pretendiam a partir dali. Que nome dar aquilo que viviam agora? A união do lúdico com lúbrico. Ao invés de opostos conflitantes, dois seres incumbidos de, na doçura comovente da expressão, esquecer as diferenças e serem opostos que se completavam.

Num susto, ela acordou em sua cama extasiada, sorridente e disposta a esquecer o sonho demasiado da noite anterior. Ele levantou-se em sua casa, despido como costumeiramente dormia. Foi lavar-se, pois o acontecimento onírico tratou de sinalizar no mundo real o desejo do corpo, da alma, do ser, do instinto... Talvez de ambos. Acordados, ele, untado de superstição, resolveu-se por calar, ensejando trazer pra realidade. Enquanto o pudor impregnado a silenciou.

Claudio R. é o escritor de O Ladrão de Palavras.
enviada por O Ladrão de Palavras






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)





Sites Interessantes