 |
14/08/2008 08:35
O HOMEM DA MULHER DO PORTO
Por Claudio R.
PS.: Antes vocês deveriam ler A MULHER DO PORTO
Quando o garçom me disse, no hotel da minha antiga vila, que não poderíamos fazer nada, eu fiquei indignado comigo mesmo. Não poderia imaginar aquela história com aquele fim, Ana Sodeñas, a mulher mais bonita que eu já vira, sendo uma louca perambulante de um porto. Gael era o cara mais bacana que eu conhecera, até então, com todas as reviravoltas da vida, eu jamais encontrara alguém com tamanha conduta.
Eu vi quando ele disse que voltaria e que amava Ana, e aquela fora a primeira vez que ele não mentiu na vida. Se alguma coisa acontecera a ele, eu tinha que descobrir pra liberar Ana daquele sofrimento.
- Oi, Ana, você consegue se lembrar de mim?
- Não, quem é você? Não me parece estranho, mas não consigo me lembrar...
- Sou o filho da Maria Del Flores, lembra agora?
- Ah sim!!! E como poderia esquecer, você era um dos meninos que ficava de prosa com o meu Gael...
Ana não me pareceu uma louca, ela falava com uma lucidez impressionante, pelo que ouvi dela ali naqueles dias, era para sequer lembrar que era gente. Ficamos conversando sobre vários assuntos até entrarmos no que ela jamais esquecera: a ida de Gael.
Eu perguntei pra ela: - Você já chegou a cogitar a hipótese de que Gael tenha morrido com um mar revoltoso...
- Já sim...
- Então, porque não se libera deste sentimento aprisionador?
- Mesmo que ele tenha morrido o amor dele por mim continuou imortal, assim, enquanto eu viver, meu amor será pra ele.
Saí da minha antiga vila pensando em como descobrir o que acontecera com Gael, se ele ainda estaria vivo e o que poderia ter acontecido para que ele não voltasse. Então, usei o que pude para encontrá-lo, contratei uma empresa especializada para pesquisar sobre os acidentes da época, a climatologia, os relatos de tempestades e tudo que estivesse relacionado.
Passaram-se 06 meses, mas eles só me traziam falsas evidências... Até que um dia eles descobrem que: Chefe, um barco virou a vinte anos, todos os passageiros morreram, os corpos foram encontrados na praia de uma cidade próxima daqui. O registro do barco havia 31 pessoas, mas um corpo não foi encontrado, só os documentos. E e advinha de quem era? Gael Rodrigues, o nosso procurado. Nós continuamos a investigação e encontramos um homem vivendo numa vila praiana, o qual o pessoal chamava de homem do mar. Ele não conversa com ninguém, imagina-se que ele seja mudo. Não se relaciona, vive de pescaria. Só pode ser ele!
Quando ouvi aquele relato, tive a certeza que estavam falando de Gael, que aquele homem era o mesmo Gael que procurávamos. Pensei em mandar eles o trazerem até a mim, mas eles me dissuadiram ao contrário, falando que o homem era arredio de mais para sair dali. Eu estava disposto a enfrentar a tal criatura sorumbática, completamente fechada para o mundo, se fosse realmente Gael, lembraria de mim e eu arrancaria palavras daquele silêncio.
Eles me levaram até o homem, a imagem do local era aterradora e triste, a solidão imperava ali. Entrei no pequeno casebre de madeira, cipó e folhas de coqueiro, não havia ninguém ali, o homem provavelmente estava catando frutas ou até caçando. Esperamos por algum tempo. Enquanto os meus colaboradores ficaram de plantão na casa, eu fui olhar em volta do lugar, era bonito, ouvia-se todos os tipos de animais que existia por ali, apenas isso e o barulho das ondas quebrando nos recifes de corais interrompia o silêncio inquietante.
Quando o homem chegou, fui chamado, cheguei perto dele e perguntei:
- Qual é o seu nome? Você é Gael Rodrigues? Ele permanecia de cabeça baixa e não me respondia continuei fazendo perguntas e esbravejei Responda, homem, quem é você?
- Ele não vai falar, chefe, deve ter ficado mudo com o naufrágio...
- O que vocês querem de mim? Tomamos o maior susto, a voz do homem saia por entre a barba a anos por fazer, não se via a boca e nem a sua forma.
- Não se lembra de mim, será que não lembra mim, Gael? O filho de Maria Del Flores...
- Claro que lembro, mas preferia não me lembrar de nada. Seus olhos brilhavam, as lágrimas pareciam eminentes.
- E por que não, homem? Perguntei, aflito olhando fixamente e segurando as suas duas mãos.
- Por que eu morri, mas Deus não teve misericórdia de mim, me deixou vagando pela terra, não sou mais que um espírito que perambula, sem descanso e tudo isso por causa...- Gael engasgou, parou, olhou para os rapazes e baixou a cabeça.
- Por favor, nos dêem licença, quero ficar a sós com meu velho amigo. Gael levantou novamente a cabeça, me olhou nos olhos e me abraçou chorosamente.
Ele me contou do acidente, o barco em que ele viajava naufragou duas semanas depois de ter saído da vila, todos morreram. Segundo ele, tentou salvar algumas pessoas, inclusive retirou gente com vida do mar, mas eles sucumbiram à morte, deixando Gael como único sobrevivente. Ele vagou pelas redondezas por muitos dias, até encontrar um local onde construiu um casebre antes deste que vive agora, morou sozinho por mais de 10 anos. Até construir uma jangada e tentar sair dali, entretanto a sua jangada se partiu e ele fora arrastado pela correnteza para esta vila onde se encontrava.
- Você é um homem forte Gael, como conseguiu? O mar tentou lhe matar por duas vezes, mas fracassou, ainda bem. Fico muito feliz de ter lhe encontrado, você precisa voltar pra casa... Gael me interrompeu com uma certa fúria.
- Não tenho casa, não tenho para onde ir, não tenho para onde voltar.
- E Ana Sodeñas? Quando perguntei, vi o olho brilhar como no dia em que se despediu dela, ele caiu em prantos, tremia chorosamente. Permaneceu assim por vários minutos e quando se acalmou eu perguntei Por que não voltou pra ela, homem, a deixou esperando por tanto tempo?
- Eu tenho vergonha de mim, da criatura que me tornei. Ana era uma mulher bonita, a jovem mais bonita que já vi, deve ter casado depois de tanto tempo. Eu me tornei esta criatura pavorosa que você está vendo. Gael mal sabia que Ana estava solteira e que ainda esperava por ele.
- Gael, você não sabe o que tenho pra lhe contar, Ana está lá, no mesmo lugar, lhe esperando, solteira, se guardou pra você, criatura.
Gael mostrou os dentes pela primeira vez depois de mais de vinte anos passados, mas freou o ímpeto de felicidade quando lembrou que prometera voltar pra buscar Ana para ir morar com ele, dar-lhe uma vida melhor do que a que ela tinha.
Por muitos anos aquilo o manteve vivo e forte, mas ele se deixou matar, - assim como ele se tratava - morreu para o mundo e não queria mostrar-se como o fracassado que ele achava que era. Mas pra mim Gael era um herói, por ter escapado de dois naufrágios e ainda conseguir sobreviver nas condições que vivia. Ana o amaria mais ainda se soubesse que ele se manteve fiel ao amor por ela, se soubesse que seu homem era mais que um simples homem, era um herói que nem os deuses do mar conseguiram matar.
Gael, voltou a chorar em prantos, mas ainda teve forças pra falar:
- Você a viu?
- Eu a vi, conversei com ela, sei que ela está a sua espera, não estou inventando nada do que lhe disse...
Saímos dali, Gael ainda olhava desconfiado para toda aquela situação, mas fomos para cidade, tudo era novo para ele. Não sabia o que era nada do que estava em sua volta. Computador, TV, carros em alta velocidade, helicóptero, etc. Tudo era novo, exceto a única coisa que nunca lhe faltara, o amor incondicional por Ana Sodeñas.
- Gael, se você achava que Ana tinha se casado, porque se manteve fiel a ela e a esse amor?
- Eu amo aquela mulher mais que a vontade de viver, seria muito perverso da minha parte mentir amor por outra mulher, seja quem fosse. Eu nasci para amar Ana, e eu só sei fazer isso com esse coração maltratado.
Fiz de tudo para que chegássemos de barco, o intuito era criar a situação que Ana esperou a vida toda. Su cabello se blanqueó, pero ningún barco a su amor le devolvia. Desta vez um barco devolveria o seu amor, eu seria o responsável por aquilo. Ana Sodeñas e Gael Rodrigues ficariam felizes para todo o sempre, o amor que nunca morreu, nem o mar matou, nem a insanidade, tampouco o tempo.
Gael fez a barba, cortou o cabelo, compramos roupas, presentes para Ana e começamos a navegar. Gael assustava a cada onda mais forte: Não se preocupe Gael, desta vez o barco não vai afundar. O mar não estava revolto, raramente uma onda batia, seguíamos bem e chegamos ao litoral da minha vila natal. Com um binóculo eu vi Ana no cais, na sua rotina de mais de vinte anos. Llevaba el mismo vestido y por si él volviera no se fuera a equivocar.
Quando aportamos, Gael sentiu medo de descer, não tinha visto Ana ainda, estava com medo de ser feliz... Eu olhei pra Ana e ela estava desconfiada olhando para o barco. Quando me viu, sorriu. Mas a sua felicidade ficou evidentemente eufórica quando viu arrastar o braço do seu homem. Ela o reconheceu imediatamente, Gael também a reconheceu trajada no seu vestido branco com renda na barra. Os dois se abraçaram e se beijaram sofregamente. Eu também fiquei muito feliz, não consigo nem imaginar o quanto eles estavam contentes, mas eu me sentia parte daquela felicidade. Tudo isso porque Ana deixou de ser a mulher do porto e Gael o homem do mar.
Baseado na letra da música de FHER OLVERA - En muelle de San Blàs.
enviada por O Ladrão de Palavras
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)
|
 |