O Ladrão de Palavras


12/08/2008 08:27

MANIFESTO PRETENSIOSO

Por Claudio R.

Das coisas que tenho a dizer, a mais interessante é que tu vais sentir saudades de uma coisa que não viveste. Embora pareça uma antítese, teu corpo vai tremer toda vez que tiveres em excitação e, por mais que tentes se esquivar, tu vais pensar em mim como uma lembrança forte e carnal.

É esquisito imaginar o teu beijo, com teus lábios se abrindo para receber o contorno dos meus e a minha língua circulando dentro da tua boca. Senti a tua respiração ofegando ao meu ouvido quando eu te apertar a cintura e beijar teu pescoço. Jamais terei tal sensação, mesmo o mundo dando voltas inimagináveis e fazendo o percurso natural das coisas mudarem completamente. Acordar contigo depois de uma noite de sexo tórrida e plácida – se é que isso é possível –, não fará mais parte dos meus sonhos incógnitos.

Infelizmente eu vou partir, vou morrer, vou sumir, vou mudar de planeta... Sem ter provado o que tenho certeza que é bom. Tudo isso com o azo de me afastar de ti, de fazer com que eu esqueça que um dia eu quis ter contigo qualquer tipo de relação carnal.

Um andar lascivo, um olhar penetrante e uma boca convidativa... Nem sabes que eu imaginei te dá um milhão de prazeres, jamais olhei a tua boca sem criar um roteiro especial pra ela. Até o branco dos teus olhos me excitava, principalmente quando eu “lembrava” deles sendo revirados numa noite à beira do mar iluminado com a lua cheia.

É difícil falar daquilo que ainda não viveste, é difícil evidenciar o gosto, o cheiro, o prazer, de uma coisa que não fora provada. Todavia, jamais irás saber o quanto eu sou “bom” neste assunto. A minha vida toda só fiz isso, é de se esperar que eu seja exímio amante. Sei que tu irás pensar que o meu manifesto é uma vã pretensão de um sujeito pernóstico, mas destas coisas que te falei, as quais eu realmente posso fazer, recebi mais elogios do que me manifestei com vanglórias.

Perco tanto quanto tu, entretanto a minha perda consiste em continuar vivendo dos louros da labuta de ser como sou. Já tu viverás com a eterna sensação que te faltas algo na vida e com isso terei pena do único homem (ou dos vários) que tentará pôr em sua vida (cama, corpo, boca), tentará desejar depois de ter me visto te anelando. Ensejando apagar o furor sexual que impregnei em ti apenas com os olhos, farás infelizes homens. E será aí que entenderá o que as lembranças não vividas são capazes.

No fundo tu te pareces comigo, és uma “dona”, alguém com a própria vontade e seguidora de si mesma. Também gosto disso, mas preferiria ser o teu dono, mandar em ti e em teus desejos. Resta-me deixar-te com esta falta de mim, esta ausência que doerá muito mais que qualquer coisa que tu viverás. Estou indo, hei, estou partindo! Prestas bem a atenção no que acabo de dizer, será a última vez que terás palavras minhas direcionadas a ti.

Claudio R. é o escritor de O Ladrão de Palavras.
enviada por O Ladrão de Palavras






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