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30/09/2008 11:05
SUPERAÇÃO
Por Claudio R.
Sinto certo desconforto quando as pessoas chamam de maluco alguém que procura superar-se em alguma coisa. Eu ouço constantemente isso desde que comecei a fazer musculação e que colocava 420 kg no legpress ou os 128 kg inimagináveis no supino. Ainda, no jiu-jitsu eu ouvia poucos comentários deste tipo, mas ainda assim falavam do fato de eu não passar das 22:00 hs para dormir e acordar as 4:30 hs pra treinar ou a alimentação esdrúxula aos olhos das pessoas, mas que me mantinham grande, forte e quase imbatível.
Quando comecei a treinar jiu-jitsu comprei também uma bike, nada muito especial, uma bike de rua com 18 marchas, com o intuito de aumentar minha capacidade respiratória e perder as gramas extras em períodos de luta. Pedalava de noite, rodava a cidade que eu trabalhava todinha, procurando aclives acentuados, ruas de pouco movimento e assim eu ia me divertindo e ficando com o VO2 em níveis satisfatórios. Contudo, eu gostei tanto de pedalar que comecei a pedalar longas distâncias, comecei com 18 km e fui aumentado. O negócio passou a ser tão bom que, nos tempos atuais, o jiu-jitsu passou a ser a atividade secundária e o ciclismo a principal. E hoje ouço muitas vezes as pessoas me chamarem de maluco e congênere, isso às vezes me irrita, mas fico feliz quando me chamam de anormal, pois isso é elogio.
Antes de contar esta história, devo explicitar a diferença entre uma bicicleta MTB e uma SPEED. Bem, uma MTB é uma bicicleta para terrenos adversos, seus pneus são birrados para não derraparem em terrenos lamacentos e ela possui amortecedores para aliviar o impacto com rochas e buracos. A relação dela é leve para que se torne fácil as subidas de morros. Ela é o mais próximo possível de uma bicicleta de rua, suas rodas têm o mesmo tamanho destas, ou seja, 660 mm de diâmetro. Já uma SPEED é uma bicicleta de corrida de estrada e pista, ela possui pneus com 700 mm de diâmetro e estes são finos e lisos. A sua relação é mais pesada, e o guidon é curvado, parecido com um chifre de alce invertido para ajudar na diminuição da pressão aerodinâmica sobre o ciclista. Basicamente, são estas as diferenças, uma serve para terra e a outra para asfalto.
Até abril deste ano, eu nunca havia competido no ciclismo, e nem tinha bicicleta para competições, eu apenas tinha uma MTB que eu adaptei para andar no asfalto, mesmo com os pneus menores, eu andava perto da velocidade de uma SPEED, treinava bastante e as distâncias que começaram com as ruas daquela pequena cidade passaram a ser 60, 70, 80... km, entretanto aquilo era muito fácil e eu decidi que iria pedalar muito mais que isso num só dia. Seria o casamento do meu irmão, há 260 km da cidade que eu moro. Quando eu contei para as pessoas que iria fazer esta marca alguns foram céticos e outros, para variar, me chamaram de maluco.
A única pessoa que acha que eu sempre vou conseguir fazer, seja qual for esta coisa, é a minha mãe. Ela nunca duvida e isso as vezes é esquisito, pois a maioria das mães que conheço acha que os filhos não cresceram o suficiente para fazer qualquer coisa, ainda mais se forem coisas anômalas.
Eu treinei por 02 meses, não conhecia nada de treinamento de ciclismo, apenas pegava a bicicleta e rodava 70 km no menor tempo possível e com o pior desconforto suportável. Procurei parceiros, mas não achava ninguém louco o suficiente para ir comigo nesta empreitada que eu previra para 10 h ininterruptas de pedaladas. Um conhecido disse que eu deveria fazer em 02 dias, mas eu achei que seria muito normal fazer isso, eu queria fazer em 01 único dia e sem pegar a estrada durante a noite.
Enfim, chegou o dia! Acordei as 4:30 h, arrumei minhas coisas e parti, levando 05 garrafas de repositor hidroeletrolítico, 20 barras de cereal e 20 saches de carboidratos. Consegui saí de casa às 5:19 hs. Os primeiros 60 km eu já conhecia, já tinha intimidade com o relevo, mas não carregando o peso da mochila nas costas, então, eu fiz em mais tempo que de costume. Mas quando o sol apareceu forte, eu comecei a render mais (as vezes eu acredito que sou de de outro planeta, pois o sol a pino me faz virar um super-homem) e consegui fazer os primeiros 120 km bem abaixo do tempo que um colega previra. Todavia, nem tudo é um mar de rosas e faltando apenas 33 km para o fim do percurso eu tive uma queda drástica de pressão, quase desmaiei e tive que parar.
- Sua pressão está 90 / 60, - disse o médico seriamente - isso é muito aquém dos 120 / 90 que seria o normal. Eu acho melhor você dormir aí...
- Epa! Negativo! Eu preciso seguir viagem, eu não rodei 232 km para ficar parado aqui..
- Bem, sendo assim respondeu ele num tom aconselhador melhor o senhor colocar a cabeça sobre os joelhos e descansar para que sua pressão volte ao normal.
Eu obedeci esta segunda ordem do médico e acabei cochilando por mais de uma hora, mas acordei novo, parecia que não tinha rodado nada. Segui viagem e cheguei à casa de minha mãe as 17:35 h. Eu estava me sentindo o superman, a sensação de poder que se absorve quando conseguimos um feito deste tipo é muito grande. É aí que você se sente anormal, muito acima da normalidade, muito mais forte que o que você era antes de sair. Muito mais forte do que as pessoas imaginavam que você era.
Meu pai achou o máximo, ele sempre que pode me eleva a condição de semideus. E minha mãe, pra variar, achou bem normal pra mim que não sou normal.
Hoje eu acordei cansado, fruto de 02 noites mal dormidas por conta de está viajando e não fui fazer o meu treino de ciclismo das 4:30 hs, mas deixei para a noite o tal treino e com isso o meu colega que divide a casa comigo brincou, pois eu havia reclamado dele não ter ido comprar o pão na padaria que fica a 2km de casa a pé.
- Por que não foi comprar o pão, velho preguiçoso? eu brinquei indagando - Está ficando realmente muito velho pra andar 2 km...
- Você queria está um velho como eu, - revidou ele ledo - casado com uma menina de 20 anos e ainda chegando junto direto. Quando você chegar a minha idade vai está aí querendo se aposentar.
- Aposentar? Isso eu queria está desde ontem, mas não dos esportes que pratico. Na sua idade eu vou está um velho ativo. E lhe digo mais, se tudo der certo, eu vou morrer aos 120 anos de acidente de bicicleta ou por complicações de um treino duro de jiu-jitsu com um homem de 100 kg...
Claudio R., vulgarmente conhecido como King busca sempre a superação e invariavelmente consegue.
enviada por O Ladrão de Palavras
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