O Ladrão de Palavras


21/10/2008 11:41

O PRAZER DE SER CICLISTA

Claudio R.

Além de ser o esporte da negação à dor, o ciclismo também é o esporte da abstração de tudo que é fútil, supérfluo. O ciclista é abstraído da vaidade, principalmente, e dos prazeres que são, para os mesmos, considerados frívolos. No seu corpo não há espaço para ser bonito ou ser impressionante, o corpo de um ciclista não é nada comparável a de um pavão em período de acasalamento.

A partir do momento que se assume a condição de ciclista deve jogar no esquecimento a idéia de que um dia o seu corpo terá um bronzeado uniforme, pois o sol deixará marcas apenas da coxa pra baixo e do pulso até os ombros. E são justamente estas partes que o ciclista, se fosse um vaidoso comum, faria questão de esconder, pois são estas que mais sofrem com as fatídicas quedas.

Ciclistas caem, e como caem! Estas quedas deixam cicatrizes permanentes e muitas delas são horríveis aos olhos leigos. Entretanto, para o ciclista elas são mais valiosas que troféus. Ainda, o ciclista adquire o estranho orgulho pelas suas cicatrizes: “Tá vendo esta aqui? Isso foi descendo uma ladeira a 80 km/h, e esta aqui foi numa competição, fui tocado num sprint”.

Qualquer ciclista que se preze não liga para moda, pois as únicas exigências em relação às suas roupas são: a absorção de suor e a aerodinâmica. Um ciclista geralmente tem mais malhas de ciclismo que roupas pra sair e isso não causa estranheza em nenhum deles, pois ciclistas não saem para outro lugar que não seja a estrada. Ir pra balada é total perda de tempo e de queda drástica de rendimento no treinamento no dia posterior.

Ciclistas são pessoas estranhas, aliás, ciclistas não estão na categoria de pessoas, ciclistas são super-homens e não é pela aparência multicor, tampouco por suas roupas coladas e pernas depiladas. São estranhos por sua incoerência na hora de comprar. (Se você conhecer um ciclista deve viver se impressionando com os preços “exorbitantes” da prática do esporte). Ciclistas acham assaz caro um sapato social de 100 reais, mas uma sapatilha de 600 é bastante barata, só pra exemplificar.

Por fim, ciclistas gostam de suas parceiras, mas apaixonado mesmo é por bicicletas. Nenhum ciclista no seu estado normal de consciência (se é que existe estado normal em um ciclista) prefere fazer qualquer percurso de outra forma que não seja de bicicleta. E por assim ser, um ciclista tem várias bicicletas, geralmente duas para cada tipo de terreno. Todavia, ninguém entende isso, nem aquela sua noiva que um dia nas vésperas do seu casamento vai dizer: “Se você comprar mais uma bicicleta ao invés de economizar para o nosso enxoval, eu juro, juro mesmo que sumo e te deixo pra sempre”. O ciclista vai olhar para a sua noiva com um certo “pesar” no semblante e dizer: “E eu vou sentir sua falta”.

Claudio R., o escritor de O Ladrão de Palavras, é lutador de jiu-jitsu por natureza, mas a dureza do ciclismo o fez apaixonar-se.

enviada por O Ladrão de Palavras






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