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30/10/2008 18:09
PRIMEIRO VOCÊ, EU VOU LOGO EM SEGUIDA
Por Claudio R.
Dois homens, um bem vestido, segurando um paletó, com a gravata folgada e o outro de bermuda jeans, na verdade era uma calça cortada na altura dos joelhos e uma camisa de político, estavam sentados à beira de uma ponte planejando se suicidarem.
- E aí, o que te levou a cometer esse ato que pra muitos parece insano? Indagou o de paletó
- A vida desgraçada, falta dinheiro pra tudo, não tenho mais nada pra fazer por aqui...
- Interessante a sua colocação, no meu caso é o excesso de dinheiro que me traz problemas.
- Como assim? Perguntou o pobre
- Veja bem, eu sou um cara rico, cheio de dinheiro, a vida não é nada fácil pra mim, por exemplo: eu tenho 04 ex-mulheres...
- Puxa vida, doutor interrompeu o pobre minha mulher quis me largar por falta de dinheiro, mas o contrário eu nunca ouvi falar.
- Ah, você não sabe de nada. Eu casei com 04 mulheres que eu nem sei se conquistei, o meu dinheiro deve as ter conquistado. Eu sou uma figura um tanto quanto feia, mas o meu carro, minhas empresas me deixa um cara gostosão para as mulheres. Sempre tive problemas de convivência com elas.
- O senhor está reclamando de barriga cheia, por falar em barriga, eu já passei foi muita fome nesta vida maldita.
- Isso eu também passo direto, quase nunca tenho tempo pra comer, e quando tenho, vou à restaurantes onde a gente tem que comer em porções mínimas que não nos sastisfazem.
- A vida é fácil, doutor, pra quem tem grana. Eu pego 03 ônibus pra ir pro trabalho, de manhã até que é fácil, as pessoas estão todas banhadas, mas é um aperto desgraçado. Você olha para o lado tem gente cochilando em pé, do outro tem gente babando no seu ombro. E ainda tem o risco de assalto o tempo todo.
- Risco de assalto?! questionou espantado o senhor rico eu pensei que só tivesse o risco de assalto quem tinha o que ser roubado. A minha vida é uma dureza em relação a isso, eu não ando sozinho, até pra vim aqui me matar, o segurança veio comigo. E eu não tenho escolhas, tenho um contrato com minha seguradora de vida que me obriga a ter segurança 24 horas, já imaginou o que é ter um homem de 2 metros de altura colado com você?
- Eu já, sim, doutor, direto dentro do ônibus que vou e volto... E o pior é que estes homens sempre estão fedendo a suor. E o senhor pode notar, pela minha altura, onde é que fica posicionado o meu nariz.
- É realmente engraçado falou sorrindo mas o meu caso é bem pior que o seu. Não é nada fácil. De que adianta ter um carro de 160 mil dólares e não poder andar com ele? Eu vivo rodando de helicóptero, e isso já está complicado, pois o congestionamento já está afetando os céus, você viu aquele avião que se chocou com o jatinho americano?
- Eu não vi não, doutor, minha mulher quem me contou. Eu fico quase 18 horas fora de casa. E o senhor ainda vem falar em congestionamento! retrucou o pobre irritado Congestionamento é aquilo que eu pego dentro do ônibus, são 03 horas de manhã e 05 a tarde. Chego em casa tão cansado que nem tenho fôlego pra dá uma cipoada na patroa.
- Cipoada é fazer sexo? questionou o rico, recebendo a confirmação com um balançar de cabeça do seu companheiro desprovido e replicou Eu não sei o que é fazer sexo faz 03 meses, assim mesmo, na última vez, foi com uma garota de programa. Nem beijo na boca rolou, aliás, eu não beijo na boca faz 02 anos. Sexo se tornou algo secundário na minha vida, e principalmente por causa das minhas 04 ex-mulheres.
- Por que o senhor diz isso?
- Aquelas, sim, eram umas prostitutas, só estavam comigo pelo meu dinheiro, e o pior, ainda não faziam sexo comigo. Fui traído duas vezes por cada uma delas. Você sabe como é, a primeira vez a gente perdoa, mas elas não aprenderam. E só não demiti o meu motorista...
- Como é que é, as 04 pegaram o seu motorista? O mesmo motorista e o senhor ainda está com ele?
- É, né, sabe como é. O meu motorista é um sujeito muito prestativo, eficiente no que faz e já está comigo há 15 anos...
- Desse jeito até eu ficaria, doutor. O cara é tão prestativo que presta outros serviços falou sorridente o suicida pobre. Se minha mulher me traísse eu nem sei o que faria.
- Meu amigo, quando uma mulher lhe trair, você não vai ter problema nenhum, não tem dinheiro mesmo pra dividir. E eu? Perdi 50% do meu patrimônio com estas 04 separações, sabe o que isso significa? São 26 bilhões...
- Misericórdia!!! Nem sei contar um dinheiro destes, doutor, o meu salário não dá pra nada, até a luz lá de casa cortaram. E a mulher ainda vem falar que não vai assistir à novela dela e mais um monte de coisa chata. Mulher gosta de reclamar, mas a pobrezinha tem razão.
Ali ficaram os dois contando os seus pesares e os malefícios da vida de cada um. Ser rico e ser pobre. Havia prós e havia contras, mas eles só enxergavam os prós da vida alheia e os contras da própria vida. E assim decidiram por um fim naquilo tudo...
- E, então, vai pular primeiro? indagou o pobre
- Espera um pouco, se quiser ir pulando pode ir, eu acabei de receber uma mensagem aqui no meu Pager dizendo que eu tenho que está no escritório em meia hora... Bolsa de valores está oscilando de mais e nós podemos ganhar muito dinheiro com isso, eles precisam de minha autorização pra entrar num negócio de risco. E aí, sabe como é? O dever me chama. E você, vai ficar por aí mesmo?
- Só um pouquinho, doutor, espera aí que meu celular tá tocando. Vixe, é minha mulher e ainda ligando a cobrar... Oi amor! Eu estou aqui conversando com um amigo que conheci hoje. Ainda não paguei o recibo de luz, mas vou pagar... para de falar com a mulher e se dirige ao rico - Doutor, o senhor tem algum aí pra mim emprestar, sabe como é, né, a mulher tá reclamando que não paguei a conta de luz e o pior é que ela vai ficar sem a novela dela.
- Vou te emprestar 1.000 reais, isso dá?
- Claro e ainda sobra. Agora posso ir lá pagar a conta e amanhã eu resolvo esse negócio de se matar, até porque vai demorar muito para eu chegar em casa de ônibus. Além disso, hoje a mulher vai querer me recompensar e a gente vai ter uma noitada daquelas.
- Ok, se o dólar continuar caindo desse jeito amanhã eu não vou ter tempo de me matar, mas a gente marca isso pra qualquer dia, anote aí meu celular...
Claudio R. é o escritor de O Ladrão de Palavras e acha a vida muito complicada, mas também não tem tempo pra se matar.
enviada por O Ladrão de Palavras
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