O Ladrão de Palavras


06/11/2008 11:42

VIVENDO O LADO SÓ

Por Claudio R.

Agora que não tem mais jeito, eu venho dizer que ainda não sou uma mulher realizada nestes anos todos sem ti. Eu gostaria de dizer-te que não te traí, não te troquei por ninguém. A parte boa de mim sempre foi tua, nunca me doei mais do que o necessário para satisfazer os anelos fulgurantes da luxúria.

De certo que soa estranho uma mulher dizendo-te estas coisas, mas no fundo tu nunca ligaste para tal ato, tu sempre fostes um homem sábio e com uma cabeça imparcial. Eu sempre te amei, meu amor, tu foste o homem mais importante da minha vida, o único homem que me fez mulher, o único homem que me despertou o desejo de viver. Contudo, meu corpo não aceitava a posição torpe de ser subjugada num prazer singular, assim, permaneci com o meu comportamento livre, onde o amor não tem barreiras e o desejo é plural.

Tu quiseste uma mulher como eu. Tu aceitaste domar-me, como um capricho entre os teus amigos, quis a mais bela da academia – a mais gostosa, como costumava ouvir-lhes – a mais rica, a mais influente, a mais inteligente e por conseqüência de tudo isso, a mais desejada e a mais namoradeira. Meu amor, tu mal sabes que eu também te desejei por todos aqueles dias em que passaste perto de mim sem dizer uma só palavra, me comia com os olhos, me desnudava das roupas e dos meus preconceitos.

Restituíste o que faltava em mim, tu foste um homem pra que eu acreditasse dona, foste o único amor, foste o único a causar a dor em dias de falta, foste o único a preencher o pensamento quando não me preenchia de carne e suor. Embora eu acreditasse ter me obrigado a ser uma maçã que não mais se repartiria para o deleite de outros homens, quando o fiz, foi de uma forma tão superficial que o teu pedaço da maçã permanecia intacto, numa tentativa, com sucesso, de tornar-te o preferido.

Tantos anos se passaram e agora venho a ti dizer estas coisas tolas e que soarão supérfluas aos ouvidos do homem que tem tudo que eu queria pra mim e tem tudo que eu queria ser.

Nós nos amávamos e se tu olhares pra mim verás que a minha íris não brilha ofuscante e efusivamente como quando eu te olhava. Meu corpo não soa nos gemidos estridentes, não sua em fluidos tórridos e nem esvaece em líquidos luxuriosos como fazia quando era tocado pelo teu. Nossos corpos jaziam depois do sexo e tu vinhas com sua mestria em massagens orientais e todo aquele apanhado de coisas que tu eras exímio e recomeçávamos tudo, isso não acontece mais.

Perdão por ter te deixado saber do que eu fazia, por conheceres os homens com quem me deitei, mas que não tiveram, jamais, o que era só teu. Sinto-me culpada por terdes descoberto quando estou tão longe de ti para poder me retratar.

Entretanto, adianto-me para dizer-te que escrevo esta missiva ensejando que tu venhas prestigiar-me, pois eu estou realizando um sonho que surgiu na tua época, e que por isso é tão importante, ganhei um prêmio internacional numa reportagem onde descrevi a tua personalidade. Como tu vedes, ainda hoje, me trazes alegrias e sucesso. Seguem as passagens aéreas. Mando-te duas, pois não sei se já tens alguém contigo. Caso tenhas, não te acanhes em trazê-la, ainda mantenho a discrição e o sigilo, mesmo isso sendo extremamente difícil. Aguardo-te, com carinho, a tua.

enviada por O Ladrão de Palavras






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