O Ladrão de Palavras


12/11/2008 09:20

OUVIDO DE CICLISTA PARECE PRIVADA

Por Claudio R.

Outro dia eu escrevi uma crônica sobre os prazeres esdrúxulos (aos olhos normais) de ser ciclista. Todavia, ser ciclista não implica apenas em prazeres, orgulho e benesses. Ser ciclista também é ter paciência, mas não é a paciência de ficar 5, 6, 7 horas em cima de uma bicicleta, tampouco a paciência de esperar o dia de vencer uma prova. Ciclista tem que ser paciente e tolerante para não partir para agressão física quando ouve certas pérolas dos leigos mais próximos – e distantes também.

Tudo no equipamento de ciclismo tem um propósito que não é estético, nada é pra ficar mais bonito, aliás, quem quer ficar mais bonito vai ao salão de beleza. Mesmo assim, as pessoas insistem em fazer questionamentos que beiram a ignorância – santa ignorância, Batman – sobre estética, prazer, objetivo e a falta dele.

Então, vamos lá, seguem as pérolas que nos deixam na iminência do ataque nervoso.

- Por que você não foi de ônibus (ou as variantes, carro, moto, etc)? – Pessoas que falam isso, geralmente não têm um objetivo de vida, são pessoas altamente sedentárias, preguiçosas e até sem vontade de viver. É de se esperar que elas façam este tipo de comentário, mas é igualmente irritante.

- Esse selim não é muito fino? (aí também cabe os comentários pejorativos sobre a masculinidade e o formato fálico do selim) – Selins de bicicletas de rua são anatomicamente feitos para que você não sofra muito com os buracos, depressões e congêneres da via, entretanto, ele não é feito para dá maior desempenho, não friccionar com as pernas do ciclista, haja vista que uma bicicleta de rua, geralmente, não é utilizada pelo mesmo tempo que um treinamento de ciclismo. E quando o comparam com um pênis, aí nota-se o tamanho da ignorância, pois, eu pergunto, não seria muito mais fácil sentar num pênis de verdade que ficar pedalando por aí?

- Essa bermudinha é meio de gay... - Essa é clássica, eu fico imaginando o que usaria o homem que pergunta isso, se fosse um ciclista... Acho que um terno lhe cairia bem, uma bermuda jeans ou ainda uma calça cargo.

- Em que posição você chegou? – Esta todo mundo faz, e você nota a cara de decepção quando chegamos nas últimas colocações. E eu não os culpo, pois as pessoas tendem a jogar sobre o outro o que elas almejam quando não conseguem lutar por aquilo. E é assim com os esportes – vejam como é no futebol, ninguém nunca viu um jogador fanático por um time, mas torcedor tem aos montes. – Ninguém quer chegar em último, nem a gente que está ali dentro, mas pra chegar em último, a gente tem que está lá dentro, correndo, sentindo a endorfina passear por nossa corrente sanguínea, sentindo a adrenalina e o ácido lático fazendo o efeito “prazeroso” de causar dor nas pernas. As pessoas não sentem prazer no prazer do outro, elas participam apenas da largada ao pódio, a infinidade de coisas que acontecem com quem está competindo, nesse meio aí, ninguém nem imagina. Assim, a pergunta mais agradável aos nossos ouvidos orgulhosos seria: “Como você está se sentindo?”. Com certeza a resposta seria: “Meu corpo está doendo, minhas pernas estão bambas, mas eu estou feliz, estou orgulhoso de mim mesmo e me sentindo o superman...”

De certo que nós competidores não deveríamos tocar nestes assuntos com pessoas leigas – por favor, não falo sobre estes assuntos – mas somos uns orgulhosos e queremos contar os nossos feitos. “Ontem eu pedalei 92 km...”


enviada por O Ladrão de Palavras






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