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18/11/2008 15:50
OUTRAS FORMAS
Por Claudio R.
Miguel entrou no aeroporto alheio a toda e qualquer presença por ali, seu olho procurava no painel a informação se o seu vôo estava dentro do previsto. Ele foi direto para a sala de embarque. Lá, fixou o seu olhar na janela que dava para o pátio de manobras dos aviões. Observava atento o trabalho braçal dos operários com as bagagens e afins.
A sua volta havia pessoas que também não estavam incomodadas com a presença das outras e apenas se preocupavam com os seus livros e revistas. Algumas delas liam, outras falavam baixinho ao telefone. Uma mulher entrou na sala e saudou a todos, Miguel olhou para a mulher e nada respondeu, ficou atônito com a beleza e simpatia dela. Antes de ela colocar-se para dentro da sala alguém a chamou, ela voltou-se pra fora e abriu um sorriso caudaloso e sincero.
- Oi Mila, como você está meu bem? Falou o homem num tom ledo e numa demonstração de afetividade efusiva. Era um homem de estatura média, forte, não era bonito, mas era alegre e o seu sorriso era sincero. A mulher, Mila, não lhe disse nenhuma palavra, apenas lhe abraçou ternamente, passava as mãos carinhosamente pelo pescoço, acariciando as orelhas e beijou-lhe sofregamente.
Miguel olhava atento àqueles dois, sua cabeça ali jazia pensamentos de todas as formas. Ao olhar, estava tentando decifrar a relação contida nas entrelinhas daqueles afagos e beijos.
Os olhos dos dois brilhavam e parecia lacrimejar, o homem olhava incisivamente enquanto a mulher o afagava com as mãos, boca e língua. Os beijos eram dignos de uma preliminar de filme erótico, mas ao mesmo tempo aquele erotismo era tomado por um romantismo singelo.
Aquela voz característica do sistema de som do aeroporto chama o vôo 3740, com destino à Paris e Miguel se desprende da visão do casal, confere o seu bilhete e segue para o embarque. A mulher aproveita até o último segundo que tem direito e arrasta o homem consigo até o portão de embarque, os dois se beijam mais uma vez e se despedem.
Coincidentemente os assentos de Miguel e Mila são juntos. Miguel já está acomodado quando ela chega ajeitando a bagagem de mão e senta-se. O semblante dela causou estranheza em Miguel, completamente refeita, não havia mais marcas do choro, do pranto contido, parecia outra pessoa, não a mesma que outrora estava chorosa.
- Obrigado! Disse Miguel a ela, a qual não entendera.
- Por que está me dizendo isso? Interrogou ela e continuou Não fiz nada.
- Estou te agradecendo por ter saudado na sala de espera, eu não respondi, estava distraído. ainda se sentiu a vontade pra falar da cena romântica Depois fiquei enternecido com a cena romântica entre você e o seu namorado, marido, digo, parceiro.
Mila sorriu com o comentário de Miguel, os dois se entrosaram numa conversa descontraída. Assim, ele ficou sabendo que ela iria à Paris para participar de um treinamento. Ela, uma ex-comissária de bordo que estava ingressando no ramo de consultoria do assunto. Miguel estava indo a trabalho, como jornalista, iria cobrir um evento esportivo. A conversa dos dois rendia, e como a viagem seria bem longa, todos os assuntos foram postos em voga.
Miguel é um homem bonito de corpo atlético, voz grave e uma inteligência sarcástica que fazia Mila embevecer-se a cada término de frase. Fazia o tipo galanteador e exercitava isso. Por conta disso, os dois logo estavam aos beijos. Depois do terceiro whisky foram parar no toalete e deram uma rapidinha.
- Uê, mas a Mila não estava loucamente apaixonada pelo seu namorado, marido, digo parceiro?
- E o que tem haver paixão com isso aqui?
- Não sei, é que eu achei tão bonitinho os dois ali, é de se esperar que, mesmo eu sendo tudo isso aí, ela não sucumbisse.
- Primeiro, você é um personagem, personagens não opinam. Segundo, você não é tudo isso, aliás, você não é nada, nem sei por que comecei este texto citando você. E terceiro, teve o whisky...
- Um whisky e a mulher já vai logo dando para o primeiro cara que ela acha interessante?
- Melhor você se manter no âmbito de sua insignificância.
Voltando a ficção...
Mila saiu do banheiro meio constrangida e o semblante de Miguel também não era diferente. Após o término do efeito da altitude e do álcool, a situação piorou e, por conta disso, eles terminaram a viagem sem se olharem diretamente.
Em terra firme ao menos o avião estava - coincidentemente eles estavam hospedados no mesmo hotel e ali eles protagonizaram tórridas noites de sexo. Foram seis noites e um dia, até a hora em que tiveram que partir.
Entretanto, como trabalho é coisa séria, durante os seus compromissos, eles fizeram o que deveriam ter feito e com sucesso.
Contudo, um fato merece ser explanado... Mila acabara de se casar, havia 25 dias, conhecera o seu marido 04 meses antes. Aquela era a primeira vez nestes 120 dias que eles estavam ficando distantes. Quanto a Miguel, ele era um jornalista gay que estava cobrindo um evento esportivo, jamais cogitou a hipótese de um dia sentir atração física por uma mulher e aquela era a primeira vez que ele havia tido uma relação heterossexual. Talvez a cena enternecedora do aeroporto o tenha hipnotizado e de tal forma que nas várias, intensas e intermitentes vezes que transaram eles não trocaram uma palavra sequer.
Na volta ao Brasil, cada um retornou à sua vida normal. O marido de Mila a estava esperando, e os dois voltaram as entrelinhas daqueles afagos e beijos. Os olhos brilhavam novamente, Mila o afagava com as mãos, boca e língua. E os beijos, novamente, eram dignos de uma preliminar de filme erótico, mas ao mesmo tempo aquele erotismo era tomado por um romantismo singelo.
- Como é que é?
- Como é que é o que? Eu já não mandei você se calar, o autor aqui sou eu, não aceito opinião de personagem vaidoso...
- Tá, tá, tá, mas que porra de história é essa que eu acabo como viado?
- Você não acabou como viado, já começou sendo...
- E como se explica isso?
- Não precisa explicação. E isso aí, pronto acabou, sempre haverá outras formas.
enviada por O Ladrão de Palavras
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