O Ladrão de Palavras


07/01/2009 17:56

COISAS QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA

Por Claudio R.

Toda vez que a mega-sena sai com um valor estratosférico faz com que muitas pessoas sonhem com o prêmio, inclusive esse escritor que vos fala. Eu quase sempre jogo, não é uma freqüência grande, mas sempre que estou entediado com o meu trabalho, eu vou lá e marco os mesmos números. Os sonhos são grandes, tantos os meus quanto os dos que me cercam.

Houve uma época em que eu jogava 2 vezes por mês, juntamente com um amigo que jogava também suas duas vezes, para que não disputássemos o mesmo prêmio, jogávamos em semanas alternadas. Quando eu jogava, ele não e vice versa. Tínhamos um pacto em que um daria um carro excelentemente bom ao outro, caso ganhássemos o prêmio.

Aos olhos dos outros, aquele era um pacto esquisito e mesquinho, haja vista que um carro era muito barato para quem ganharia milhões. Porém, entre nós, havia o discernimento e a racionalidade para sabermos diferenciar o que verdadeiramente seria cumprido após o ganho do prêmio. A gente sabia o que queria enquanto éramos dois pobres, mas quando um de nós se tornasse rico, não sabíamos o que se passaria por nossas cabeças, mas, principalmente, não sabíamos o que os nossos parentes e entes queridos iriam pensar em relação às nossas vidas dali em diante.

Bem, esse tipo de coisa não é muito levado em conta quando se almeja um prêmio gigantesco, e sim, um monte de realizações que beira a insanidade. O dinheiro, além de poder, traz a loucura com ele, bem ali escondida, está ela, e quem não sabe controlar, ou como diria o Frejat, quem não sabe “quem é o dono de quem”, acaba cometendo asneiras.

Eu não acredito na sorte, tampouco na idéia de merecer, não fica nem bem para um ateu convicto, e homem completamente desprendido de coisas místicas, acreditar em coisas do tipo. E é por isso que as minhas realizações almejadas pós premiação é bem pé no chão, quase tão bem calculada – aliás, muito bem calculada – numa planilha excel com todos os ganhos e os possíveis gastos.

O que você faria com 44 milhões?

Caso eu ganhasse os 44 milhões do sorteio mais recente, com certeza, muita coisa iria mudar na minha vida. Eu fico, as vezes, imaginando a cena – não a sena – em que eu ganharia o prêmio e entraria no banco com toda “arrogância” que já tenho hoje, revestida nos milhões recém ganhos, e pediria ao gerente da CEF que me atendesse, caso não fosse atendido com todos os mimos que tamanha quantia merece, pediria a ele gentilmente que fizesse um cheque administrativo para que eu fosse depositar a grana noutro banco. Outra coisa que seria praxe seria nunca mais por os pés num local de trabalho.

Fiz uns cálculos, a grosso modo, com os juros normais da poupança, fazendo um saque mensal de 30 mil, em 1 ano eu teria 47,8 milhões. Penso que com esse gasto mensal eu teria uma vida de rico e ainda lucraria 3,8 milhões em 1 ano. Sem contar que os juros da poupança poderiam ser negociados para mais entre os bancos que eu escolhesse.

Eu daria uma boa vida para minhas duas mães, meu pai e meus irmãos. E a minha ajuda se restringiria a eles, meus amigos, se verdadeiros fossem, teriam que se contentar com a felicidade do seu novo amigo rico (risadas metafísicas).

Todavia, existem coisas que o dinheiro não compra, mas manda buscar onde tiver. Eu realizaria todos os meus sonhos de consumo. Viajaria muito, sobretudo pela Europa, e para não perder o costume, conheceria vários países pedalando a minha Specialized de fibra de carbono - que hoje eu teria que trabalhar 2 anos sem gastar um tostão para poder pagar. Tentaria me manter o mais culto possível, para poder aproveitar o máximo do que o dinheiro não compra. Iria tentar me aperfeiçoar nos esportes que idolatro – jiu-jitsu e ciclismo – e o resto do tempo, como diria um grande amigo, ficaria “peidando para o cão”.

Eu não montaria empresa, não compraria ações, não compraria imóveis como fonte renda, nada que me trouxesse preocupação. Eu apenas seria alguém muito rico que vive da renda mensal líquida de pouco mais de 30 mil reais. Das coisas que o dinheiro não compra, a que mais desejo ter é a de não trabalhar, não ser nem empregado, nem patrão, ser um aposentado com 30 e poucos mil, aos 30 e poucos anos, mas ainda muito inteiro.

Aquele meu amigo da época em que jogávamos juntos, dizia que se ganhasse uma quantia assim trabalharia por mais um mês só pra ter o prazer de mandar o chefe tomar no cu. Enquanto eu dizia pra ele:

- Caso você ganhasse, e continuasse trabalhando, eu torceria para que uma máquina lhe atropelasse – falava isso em tom jocoso e emendava - e ainda lhe deixasse paraplégico.
- Você é muito filho da puta – respondia ele, e eu dizia:
- Filho da puta é você que quer ser um milionário que trabalhou por 30 dias – caíamos na risada e eu ainda dizia – pois eu lhe digo que nem sei se cumpriria o nosso pacto, teria o prazer de sumir e nunca mais mandar notícias minhas, este prazer o dinheiro não compra.

"E você, o que faria caso ganhasse 44 milhões?"

Claudio R. é um escritor meia-boca desconhecido, um lutador medíocre, um ciclista idem, mas com 44 milhões tudo isso iria mudar
enviada por O Ladrão de Palavras






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