O Ladrão de Palavras


10/01/2009 16:06

O NADA

Por Claudio R.

Estes dias eu andei com muita inspiração, mas com a costumeira preguiça não escrevi nada. Daí a inspiração foi embora e eu fiquei sem nada pra escrever, estava almoçando, onde eu comi quase nada e como não tinha nada pra pensar, resolvi pensar no que eu precisava escrever, pois meus leitores estavam sem nada meu até então. Assim, depois de tanto nada, pensei em escrever sobre o nada.


E descobri que eu gosto do nada, não que eu tenha nada contra o tudo, mas o nada também me fascina. Nada pra fazer é bom. Nada pra pagar é desopilante. Nada pra adoecer. Nada pra pra nada. O nada posto nestes contextos é tudo de bom. E é contraditório o nada ser tudo, haja vista que o nada é nada ou coisa nenhuma.

Eu já estive várias vezes sem inspiração, mas nada muito sério, certa vez eu não sabia onde ela estava e a encontrei em meio ao nada, sei que isso não tem nada a ver com o nada que estamos falando, pois o problema com este nada aqui é que ele está sendo usado como o tudo, pois eu não tinha nada a dizer e nada melhor que falar de nada.

Às vezes as pessoas confundem as expressões e eu acho interessante esta confusão quando é feito com o nada. “Eu não tinha nada pra fazer, por isso fui embora”, veja bem, se você não tinha “nada pra fazer” é por que você tinha “tudo pra fazer”, então você não deveria ter ido embora, deveria ter ficado para fazer o tudo. Correto? É, desculpe-me. O nada é muito complicado, nada fácil de explicar.

Provavelmente você não entendeu nada desta minha investida com esta expressão que muitas vezes é tudo para alguém que não tem nada a dizer. O nada é muito forte, e se eu fosse realmente expressar o nada, aqui nesta crônica, não deveria ter escrito nada, visto que nada melhor que uma folha em branco ou melhor, uma folha sem nada escrito para da acepção ao nada. Mas não se engane com tudo que eu tenho dito: nada é o que parece ser!

Li outro dia, num texto que não dizia nada, que o nada é maior que o tudo, pois, segundo o autor, há mais coisas que não existem do que coisas que existem. Contudo, venho dizer que a frase é contraditória, pois o verbo haver tem significado de existir, e sendo assim, como poderíamos dizer que “existem mais coisas que não existem do que as que verdadeiramente existem”?

Na falta de tudo, vai nada mesmo. E o nada cresce a cada vez que eu penso em nada, pra falar a verdade, esta crônica deveria ter parado lá no primeiro parágrafo, mas, que nada, eu continuei falando e foi surgindo tanto nada na cabeça que já vamos em quase um jornal inteiro sobre o nada.

Quando eu era criança, confundia o nada do verbo, no qual Phelps é exímio, dos outros nada que estamos falando. Acabava que quando alguém tentava me explicar, eu não entendia nada – esse “nada” pode ser substituído por “porra nenhuma”. Por falar em substituir, o nada é uma palavra muito ousada, cabe em mais frases que tudo que você pensar. Poucas palavras são como o nada, que é substantivo masculino, pronome indefinido e advérbio. Se bem que eu não sei onde o nada entre no caso de pronome e advérbio, mas isso não é nada diante da profusão de tudo que o nada pode ser.

Bem, chegamos ao último parágrafo, e vejo que no fim das contas tudo deu em nada. Nada a declarar, exceto que já escrevi mais de 400 crônicas e, em matéria de dinheiro, não ganhei nada com isso. Essa é mais uma das que não ganharei nada, mas meus leitores são mais que tudo, mesmo eu não ganhando nada. Posso dizer que sou um Sócrates e venho pra dizer que só sei que nada sei. E nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia.

Ah, eu menti sobre o último parágrafo!! Mas não digam nada, não me excomunguem e nem fiquem irritados, afinal nada é o que parece ser. Entretanto, eu criei mais um parágrafo porque me esqueci de dizer que, mediante a minha insignificância, a Rosane é o meu tudo e eu não sou nada sem ela. Embora muitas vezes, sobre ela e o amor, eu nada diga, agora todos vão dizer que eu disse tudo.

Claudio R. é um escritor de nada e ainda assim acha que está bom, pois é melhor que ser um escritor de merda nenhuma
enviada por O Ladrão de Palavras






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