O Ladrão de Palavras


15/05/2009 18:24

A FALTA QUE A PAIXÃO FAZ

Por Claudio R.



Necessariamente não é você que me faz falta, mas as coisas que trazia consigo, coisas que poderia encontrar em qualquer mulher, mas que vejo e não enxergo, o que torna o meu convívio com qualquer outra uma companhia pífia. A carência faz a paixão ser mais forte, salienta as qualidades e traz a tolerância dos defeitos da outra parte. Esta carência pode existir ou simplesmente ser uma fantasia, não sei exatamente o que se passou comigo, mas eu sempre acreditei que a paixão é a supressão de uma necessidade que você tem, acredita ter ou precisa ter para que o outro susta.



E assim, o que me faz falta são as palavras que você me dizia quando queria alguma coisa de mim. O jeito carinhoso que só utilizava comigo... O tratamento diferenciado sempre me agradou e você nem sabia disso, mas mesmo assim utilizava-se deste artifício.



Sinto a ausência de como você me esperava todo dia, quando eu chegava de cara amarrada e exausto, você insistia para que eu transasse contigo, como se estivesse mendigando um carinho pelo qual você não merecia. Entretanto, você sabia que, além de merecer, tinha direitos adquiridos pelos benefícios que incorreu em tempos idos.



Definitivamente, só o fato de usar a minha calcinha preferida, só isso já deveria lhe trazer o merecimento de tudo que quisesse de mim. E eu sinto falta da sua calcinha fio-dental, principalmente aquela vermelha de amarrar em apenas uma das laterais. Logo eu que tinha a cor vermelha como sinônimo de meretrício. Tolo! Você era a minha meretriz e sempre foi só minha. A santa com as vestes que retirava à noitinha e utilizava-se dos gemidos para me excitar ainda mais. Eram estes mesmos gemidos que faziam a minha fama de exímio amante perante a vizinhança.



Sinto falta quando eu queria só um banho e você me puxava para dentro da banheira querendo mais de mim. E eu me fazia de inocente para que você aprimorasse o seu jeito indecente de me fazer bem.



As unhas feitas, o batom delineado, o contorno nos olhos, a depilação do púbis “brasileira”, a cama vazia as quatro da manhã quando você voltava pra casa antes de todo mundo acordar, tudo isso deixou uma lacuna enorme aqui comigo.



Restou a vaga de uma paixão aqui, restou as lembranças de quando eu entrava, a seu pedido, pela janela a noite e tinha que me esquivar pela manhã para não ser visto por alguém da sua família. E como eu disse, não é você quem me faz falta, não a sua pessoa, pois eu poderia usufruir disso com qualquer uma mulher. Todavia, não sei se encontrarei alguma mulher que andará comigo assim como você andava. Uma que fizesse tudo o que eu gosto de fazer e que simulasse um prazer nos olhos em está comigo numa atividade chata.



Insisto em chamar de lacuna de uma paixão sentir falta do gesto excêntrico de quando você me visitava nas manhãs de domingo com o azo de assistir à fórmula 1. Não víamos nem o início, em troca disso você reclamava da minha cueca de cor esdrúxula e a retirava para que nós fizéssemos o sexo dos deuses.



Vou continuar sentindo a sua falta, ou melhor, a falta das coisas que você fazia, mas a minha carência não poderá ser medida apenas com a supressão disso tudo, pois a paixão é sempre mais que isso, mesmo que ninguém acredite. Nem eu, nem você.



Claudio R. é o escritor ausente de O Ladrão de Palavras, mas pretende voltar o mais rápido possível ao hábito prazeroso de escrever


enviada por O Ladrão de Palavras






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