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25/06/2009 19:17
DESEJOS IMPLÍCITOS
Por Claudio R.
Resolvi pensar sozinho num dos raros momentos em que me deixou assim. E por pensar, resolvi te deixar, abandonar-te aos teus desejos implícitos em que eu não conseguia adentrar. Eu não te quero mais por entender que o seu pessimismo trágico levou essa nossa relação a uma obscuridade que eu não conseguia mais me encontrar dentro dela, tal qual um baiano perdido no Rio de Janeiro e pedindo informação para um gaúcho característico.
Às vezes penso que eu tinha ciúme de ti, por crer que eu não era o único estrangeiro da sua lista, principalmente ao ouvir as suas frases com trejeitos e sotaques de outros estados.
Eu te deixei por te achar inteligente de mais, bem humorada de mais, sarcástica de mais e gorda de menos. Não conseguia competir com alguém tão esperto quanto o google e ainda por cima, alguém que soubesse disso é o google que não me deixa passar por ignorante, ironizava.
Deixava-me pasmado a idéia de não ter carteira de identidade, mas a paixão encobria isso, logo depois descobria e eu me via atado a ti pela sua despreocupação com isso. No Paulo Leminski era perfeitamente justificável, ele tinha um bigode que não me atraia em nada, já em ti, esse seu belo rosto e o branco lôbrego e libidinoso dos seus olhos sairiam muito lindo em qualquer documento, inclusive a referida carteira.
Achei uma grande maluquice tu comprares um carro e nem ter CNH, mais maluquice você não saber andar de bicicleta. Tudo lindo para o Caetano Veloso, mas pra mim, nem tanto.
Ainda, eu estava na fase mais baixa da sua oscilação de personalidade nos relacionamentos, que consistia em eu sofri, agora é a minha de fazer sofrer. Logo eu que sempre fiz sofrer...
De tudo, eu gostava de quando tinha nada, pois seu tudo era muito tudo e o pouco meu não agüentaria, como não agüentou. Não resistiu às palavras sinceras e mentiras doces, não resistiu ser um personagem secundário num filme onde tu tinhas todo a indumentária de protagonista. E quando acordava em meio a um filme antigo, tal qual E o vento levou , eu tinha que me contentar em não ser nada, pois, nestes dias em teus filmes a Scarlet OHara vivia sozinha e sofria de TPM.
Cansei de ouvir seus dramas da cadeia alimentar de um réptil herbívoro. Cansei de escrever as tuas dietas, teu guia treinamento, de correr contigo... Cansei de vê os resultados aparecendo e tu ficando mais linda do que nunca. Nem posso lembrar, para não pensar em voltar atrás...
Era odioso aquele seu banho demorado e o chuveiro criativo de teorias conspiratórias e filosóficas, e depois, mais odioso, o hidratante demorado de 15 minutos.
Caso eu não esteja enganado, era assim que tu me querias, avesso às seus desmandos e vontades, agora já tem isso. Não sou mais seu amor, não sou mais seu querido, nem seu personagem preferido de uma comédia romântica embora achasse isso o mais sincero possível. Resta-te, agora, cobrar pelos teus abraços, pois aqueles dirigidos a mim, não terão mais serventia sem ser devidamente remunerados.
Se quiser, joga fora aquele cordão que te dei para que não te lembres mais de mim como uma coisa boa na sua vida. Jogues fora aquela calça jeans que levei dias escolhendo e ainda assim não acertando no número e no formato; confesso que paquerei todas as vendedoras do shopping, mas isso foi ensejando uma compra perfeita. Ah, não esqueça de jogar fora também aquele conjunto de lingerie que te dei e tu, implicitamente, achaste egoísta de mais. Fica com os meus e os teus livros, todos eles, teu vício como ofício. Fica com teus sonhos de riqueza com a literatura e com teus amantes letrados, os Max, os Arans, os outros.
Como vê, escrevo-te a mão, para que sinta que é de plena consciência o que tenho dito aqui. Vou te deixar por achar-te pessimista e trágica que acredita que um namoro tem que ser como um livro do Santiago Nazarian, ter começo, meio e fim, mesmo que esse começo, esse meio e esse fim sejam implícitos.
Claudio R. é o escritor de O Ladrão de Palavras.
enviada por O Ladrão de Palavras
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