O Ladrão de Palavras


01/07/2009 16:13

APRENDENDO A SE DOPAR

Por Claudio R.

Não é de hoje que os atletas de ponta se dopam. Todo tipo de artifício já foi utilizado como doping pelos antigos e hoje o negócio é bem mais tecnológico e mais científico também. Salvo engano, não existe esporte onde não há a existência de doping e isso é muito ruim para a ideia inicial que praticar esporte tem.



Teoricamente, o esporte é saúde, é manutenção da vida saudável por mais tempo, por conseguinte, o doping vai de encontro a essa filosofia. Todo mundo sabe dos efeitos maléficos das drogas usadas como doping, mas uma força muito maior que a sabedoria ataca a mente do atleta, e ele acaba usando desse artifício tenebroso para alcançar o galardão do vitorioso.

O que faz um atleta se dopar?

Um atleta profissional é pressionado a se dopar, isso é um fato. Basicamente, o resultado é a principal fonte de pressão, quer seja diretamente, quer indiretamente. Diretamente é pressionado pela atitude do atleta que se vê atraído pelo pódio e o deseja mais que a própria saúde e a própria vida. Indiretamente através dos patrocinadores e da torcida. Os primeiros pressionam a busca de resultados, não importa o que aconteça, não importa se o adversário está num melhor momento ou se o seu próprio momento é inadequado. Já a torcida não aceita o seu ídolo atrás e cobra o suficiente para que este perca a cabeça.

Nada das coisas citadas acima justifica o doping, sendo que, quando se escolhe ser atleta, estamos sujeitos a todas estas intempéries e devemos aprender a lidar com elas de uma maneira saudável e justa.

No meio amador vemos jovens se dopando por questões estéticas e é na musculação que encontramos a maioria destes. Eu já fui um entusiasta do “bodybuilder” e almejava um corpo de incrível Hulk, mas sem a tonalidade esverdeada. Durante o tempo que pratiquei a musculação e o jiu-jitsu, eu vi muita gente admitindo o uso de drogas anabolizantes e já fui muitas vezes convidado à mesma prática. Todavia, eu empacava no quesito saúde, mais especificamente a saúde sexual, e não me deixava levar pelos apelos vaidosos da massa, sem trocadilho. Alcancei o ápice da minha performance na musculação e no jiu-jitsu com aproximadamente seis anos de prática. Cheguei a pesar 92 kg, fazia supino reto com 126 kg, leg press com 430 kg e rosca de bíceps com 60 kg e no fim das contas eu não fiquei tão feliz quanto imaginara que ficaria.

O meu esporte atual, o ciclismo, é indiscutivelmente o mais malvisto quando se trata da questão doping. O ciclismo de competição é um esporte duro, ultrajante, ingrato e, como diz uma amiga, “tão auto-destrutivo e doloroso quanto um suicídio”, não sendo admitida a prática para qualquer um.

O ciclismo caiu no meu colo como uma atividade auxilar ao jiu-jitsu, a atividade aeróbia, e quando o aceitei, eu sabia que eu não era qualquer um. Contudo, de atividade auxiliar, 8 anos depois, tornou-se atividade precípua.

Ciclistas com costas de 1 metro de largura, braços com 46 cm de circunferência e peitoral mais preeminente que o próprio nariz não existem, é uma compleição atípica e eu teria que lutar contra isso, caso quisesse utilizar o ciclismo como atividade de competição. E como eu faria isso? Como eu lutaria para ser tão competitivo quantos os outros? A primeira resposta seria perder peso, e eu perdi 16 quilos daqueles músculos conquistados tão sacrificadamente.

Todavia, ainda faltava responder a segunda questão: ser competitivo; eu não conhecia a resposta certa e a única que permeava a minha mente era apenas o doping. Se no jiu-jitsu o ciclismo era o meu “doping” saudável (era com ele que eu tinha mais gás nos instantes finais daquelas lutas), com o ciclismo eu não teria a ajuda contrária. Assim, o doping sujo continuava a ocupar espaços no meu pensamento que não lhe pertencia, mas eu permaneci resistente.

Não é fácil resistir ao doping no ciclismo, pelas características que o ciclismo tem. Entretanto, eu aprendi a dopar a minha mente, o ciclismo resume-se à resistência a dor e ninguém entende de dor mais que eu, suponho (já lutei com pé quebrado, com dedo da mão completamente fora de posição e com uma costela fissurada). Embora seja hoje apenas um ciclista, ainda tenho coração de lutador e este não admite ninguém lutando por ele, não admite quebra de regras, não admite falcatrua e tampouco doping.

É o cérebro quem comanda as pernas, coordena a pedalada, define a cadência e controla os batimentos, e eu luto com a força da mente para ser mais forte que o sinal dos meus músculos, luto para ser mais forte que a dor, mais forte que os calafrios e a sensação de queimor nas pernas. Luto contra o sono de madrugada, contra a vontade de permanecer na cama quente e contra o frio da estrada até o aquecimento. Luto contra a sensação de solidão, contra o medo dos motoristas insensatos com seus carros que não respeitam a distância de 1,5 m de mim. Luto contra a falta de dinheiro para a manutenção digna do equipamento. Luto contra a falta de tempo para descansar, contra o corre-corre para chegar no trabalho.

Assim, não dá pra usar doping e não se sentir culpado. O doping é desleal, é roubo, é crime, vai de encontro aos princípios éticos que aprendi com meus pais e com a arte marcial que pratiquei por tantos anos e, sobretudo, é uma ignomínia para o atleta. Estou aprendendo a me \"dopar\" com treino e alimentação condizente com o meu esporte, estou aprendendo mais sobre ele, leio bastante e, sempre que possível, busco orientação profissional. Até hoje não obtive os resultados que almejo, porém sempre que concluo uma prova, eu sou o único responsável por isso. E no dia que eu alcançar a vitória, naquele pódio subirá apenas as minhas pernas, o meu orgulho, a minha honra e a minha força anelante de querer sempre mais.

Claudio R. é o escritor meia-boca de O Ladrão de Palavras e ciclista nas raríssimas horas vagas.

enviada por O Ladrão de Palavras






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