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06/07/2009 20:31
O AMOR É UMA DOR
Por Claudio R.
Ainda hoje os artistas teimam em utilizar o amor fazendo alusão à dor e eles não estão sendo pessimistas ou depressivos, aliás, não estão sozinhos nesta maneira de pensar, pois, em sua essência, o amor é a representatividade da dor. O amor só é amor quando dói.
Ontem foi o casal ali perto de casa, mas antes deles vieram Tristão & Isolda, Romeu & Julieta e Orfeu & Eurídice que, tal qual a vida real, são casais que a literatura marcou como grandes amores, digno de nossas lágrimas e apreço. No fundo o amor é assim, pra marcar, pra se fazer valer como amor, tem que deixar marcas e cicatrizes, entretanto, isso só é possível caso abra-se uma ferida.
Tristão e Isolda morrem e não vivem uma história carnal de amor (o amor antítese do amor almejado por todos); Romeu e Julieta também sofrem do mesmo problema, já Orfeu e Eurídice vivem uma variante do sofrimento pelo amor, quando uma das partes morre ou o troca por outro. As histórias de amor na literatura e na arte em geral só existem pela própria impossibilidade do amor recíproco e duradouro acontecer ou permanecer, como queiram.
O romantismo, movimento surgido na idade média, centra sua idéia contrariando o racionalismo, ou seja, tudo que viesse dali por diante seria procedente do espírito emotivo dos autores. Os dramas humanos, amores trágicos e utópicos, ainda, os desejos de escapismo e o gosto pela morte são características peculiares do romantismo que traçou um perfil do amor como um sentimento cheio de dores e equívocos.
E o sucesso destes amores está justamente em não ocorrerem de fato. Não é a toa que as músicas românticas são as mais vendidas, as pessoas se compadecem daquele amor que toca em seus corações (perdão do trocadilho) e fazem com que elas se sintam parte daquela relação de paixão onde a saudade, a tristeza e a desilusão imperam.
Caso faça uma lista das 10 canções mais pedidas talvez mais, sendo pessimista como o amor, eu diria as 100 canções mais pedidas , encontraria uma seleção de histórias onde os personagens presentes na letra da canção não vivem e nem convivem em reciprocidade sentimental por muito tempo ou de forma alguma. Na maioria delas uma parte traiu e/ou está vivendo uma história de amor com outra pessoa.
Numa música do saudoso Renato Russo, o personagem troca a segurança do seu mundo por amor. A música trata de uma relação no começo, eles acabaram de se mudar para a nova casa e estão comprando as coisas para iniciarem a vida a dois. Assim, o amor ora vivido por eles ainda não passou pelas desilusões, porém ali está sendo amor, pois o amor só é eterno se não acontecer efetivamente. E a prova disso é que um casal de amigos usou essa música como tema para o seu casamento e quando o amor aconteceu, ele não aconteceu, eles se separaram por que o meu amigo fora abduzido por outra mulher (mas isso é outra história de amor).
Noutra canção do mesmo Russo, ele retrata uma relação entre duas pessoas em que uma sofre com as lembranças do outro por ter acontecido assaz no passado, em tempo, ele diz que aquele é um bom exemplo de bondade e respeito do que o verdadeiro amor é capaz e no fim questiona como se diz eu te amo hoje em dia. O amor do personagem só estava sendo amor por que a outra parte resistia na existência daquela relação numa foto 3 x 4. Também, em Eduardo e Mônica, ele trata de um casal completamente oposto e adjudica razão nas coisas feitas pelo coração. A relação do casal inspirador desta música não chegou a fazer bodas de papel.
Outro que já justificava antecipadamente o fim da relação atentem para o fim da relação e não do amor é o Odair José em eu vou tirar você deste lugar, quando conta a história de amor entre um cliente e uma prostituta, eu quero que você não pense nada triste, pois quando o amor existe, não existe tempo para sofrer. Ledo engano do seu personagem, contradizendo o fato de que o amor só existe enquanto houver sofrimento.
A história de amor impossível é excessivamente atraente por ser mística e emotiva na sua essência. Os olhos marejados da menina ao sair do cinema é que vai determinar se o filme contava uma história de amor profundo na sua impossibilidade ou um melodrama chato.
E por assim dizer, o grande pigmeu Chico César canta o personagem que chorou ao ver o seu broto no cinema com o seu melhor amigo. Está aí uma versão atual de um amor não acontecido e ainda por cima, destruindo um laço de amizade. O personagem talvez nem tenha notado o filme, mediante o acontecido, mas talvez este ficasse em sua memória caso fosse verdadeiramente um filme triste de amor onde os personagens não terminassem felizes para sempre no final.
O filme é outra representação artística onde os que persistem em nossa memória são os que causam sofrimento de amor aos personagens e consequentemente nos espectadores. Closer Perto de Mais e Um amor pra recordar, salvo desproporção qualitativa, são filmes do mesmo gênero, tratam de amores impossíveis e por isso doem e a dor é um alvitre mais forte.
O amor só é forte o suficiente quando é apenas uma lembrança dolorida, enquanto a felicidade cai no olvido e só retorna à memória quando outrora ficou pra trás e agora já é a dor de não poder usufruir.
Tudo isso por que o par ideal não existe, a relação ideal não existe, o amor recíproco não existe de verdade e por tentarmos adequar o que nos é oferecido dentro destes aspectos, caímos na armadilha perfeita para eternizarmos o amor, a saber, o sofrimento. Assim como o homem ideal não existe, a pessoa por quem a gente se apaixona também não existe, já dizia Freud, a gente inventou no nosso querer para que fiquemos concretamente envolvidos um com outro, no fim, isso também é um atrativo à dor. Por sermos falhos, jamais conseguiríamos desenhar o ser perfeito a nós mesmos, mesmo que isso acontecesse apenas no meio onírico de nossas mentes.
Por conclusão, o amor vai continuar existindo e os seres humanos, capacitados para a adaptação, aprenderão a lidar com ele com menos dor e sofrimento, por conseguinte, acredito que aí o amor deixará de ser amor. Pois só a aflição trazida pelo sofrimento do amor é capaz de fazer um homem, como o rei Shah Jhan o fez para a sua falecida amada Mumtaz Mahal, construir uma obra de arte incomensurável tal qual o Taj Mahal.
Claudio R. é o escritor de O Ladrão de Palavras e, por muitas vezes, já pensou em construir um castelo com as próprias mãos, em nome do amor.
enviada por O Ladrão de Palavras
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