O Ladrão de Palavras


10/07/2009 15:34

A NÍVEL DE MEIA INTELIGÊNCIA SEM ATITUDE

Por Claudio R.

Naquela amanhã eu levantei da cama muito estranho. Levantei com o pé direito – isso mesmo, pé direito – quando o costume era o pé esquerdo. O livro que amanhecera ao meu lado era muito chato. Ops! Livro chato? Isso não existia até aquele momento. Eu levantei faltando um pedaço do meu corpo, algo de errado estava acontecendo. Alguma bruxaria fora lançada sobre mim. Eu acabara de perder o meu cérebro, ao menos parte dele. Ficara sem inteligência, meu intelecto fora lançado ás moscas.

Aquilo não me perturbou. Eu não estava achando ruim ser uma criatura sem dotes intelectuais. Na TV passava uma série idiota que eu odiava e comecei a olhar com outros olhos, estava maravilhoso assistir aqueles personagens caricatos, com seu humor explícito e exagerado.

Fui no meu quarto e notei que lá só tinha livros chatos: Nietzsche, Machado de Assis, Schopenhauer, Platão, Sartre, etc. Não havia nada de fácil entendimento, só estes autores entediantes, uns chatos. Tratei de ir numa livraria perto de casa, aquilo me deu uma ojeriza de arrepiar até os cabelos cadavéricos de Kafka. Eu não queria livro, eu não teria tempo. Alguma coisa me dizia que livro tomaria o tempo de eu ir ao cinema ver um filme meloso com final feliz ou ainda um filme com o Jean Claude Van Dame. Dali pra frente ele seria meu ator preferido.

De volta aos livros, eu resolvi comprar uns livros de auto-ajuda, não que eu estivesse precisando de ajuda, eu estava bem, feliz da vida. Mas sempre é bom ter uma segunda opinião, até mais, se for possível. Comprei um livro do Augusto Cury, TREINANDO A EMOÇÃO PRA SER FELIZ: AUTO-ESTIMA, e VOCÊ É INSUBSTITUÍVEL, que maravilha, duas pérolas da literatura mundial. Comprei também um do Paulo Coelho e ganhei de brinde um livro da Zibia Gaspareto. Nunca foi tão fácil ler. Eu estava mais esperto, lia numa velocidade descomunal – também, não precisava entender nada, já estava tudo ali na cara – não havia palavras complicadas, pareciam ter sido escritas por meu irmão de sete anos e era muito mais fácil entender o que meu irmão de sete anos diz, que as palavras proferidas por um filósofo grego da antiguidade.

Passei a gostar mais de música, toda música que passava na rádio eu procurava no 4shared pra baixar, eu estava feliz pra caramba. Eu dançava muito, não estava perdendo um pagodinho com o pessoal no fim de semana e nem aquele forró da quarta feira à noite. Claro que isso só depois do futebol com o pessoal.

Futebol com o pessoal estava sendo o meu programa predileto, lógico que não era pelo esporte em si, mas pela algazarra que se formava logo depois. – Faltou atitude da sua parte, seu porra, ficou parecendo um viadinho. – Porra nenhuma, se você tivesse feito menas falta, a gente ia vencer. – No próximo a gente vamos ganhar.

Juro que eu não sabia mais o que era um objeto direto, e também juro que aquilo não fazia nenhuma diferença. Aliás, até que fazia, o pessoal não estava mais me chamando de pernóstico e nem virando a cara quando eu chegava. Eu estava integrado ao grupo. Dali pra frente os pronomes oblíquos conjugavam verbo. “O que vocês têm pra mim fazer hoje?”. Estava sendo bom está assim. Ninguém mais me perguntava nada, não me perguntavam o que eu achava, o que eu entendia por aquilo ou ainda se eu achava que iria dá certo. Eu era como a maioria e, afinal de contas, para que servia a opinião da maioria?

A minha vida agora estava divertida. Qualquer entretenimento era viável, qualquer conversa poderia ser substituída por um joguinho de dominó rodeado de cerveja. Eu estava levando a vida do jeito que pedi a Deus. Eu não enxergava mais uma mulher meio gorda ou uma bunda meio caída. Agora, eu via tudo “meia”: meia gorda, meia caída, meia feia, meia esquisita, por que no fundo algo meio esquisita é muito mais esquisito que meia.

Quando eu queria dá uma de intelectual - eu já não sabia ser um intelectual -, fazia aquela cara de entendido no assunto e começava falando sempre com um “a nível de...” seja lá o que fosse, o a nível dava um ar contextualizado ao negócio. E, independentemente de qualquer outra coisa, eu estava muito feliz.

Adjunto adverbial quase me faz perder o ano no ginásio, então, eu tratei de aprendê-lo, tornei exímio conhecedor e não mais errara dali pra frente. Falava corretamente até ter acordado diferente naquela manhã. Ali não fazia mais sentido saber qual a diferença entre usar o “independente” e o “independentemente”. Dali por diante eu usava sempre o “independente”, independentemente de que frase eu estivesse proferindo. A palavra menor tem que prevalecer. Nem queria saber se era adjetivo ou advérbio, foda-se.

Ah, eu comecei a falar palavrões! De todo tipo, mas o pior era cu. Eu mandava muita gente tomar no cu, e pior de tudo é que mandei o meu chefe tomar. E ele me demitiu. Não por que ele não gostasse de tomar no cu, e sim, por eu ter posto o acento no cú. Ele achou uma ignomínia. Veio com um papo de que oxítonas terminados em “u” e “i” apenas acentuam-se os hiatos. E quem sabe o que é um oxítona? E um hiato? Quando respondeu o meu e-mail, me demitindo, eu não entendi direito, estava um monte de palavras que eu tive que olhar o dicionário uma porção de vezes até encaixar.

Caguei e andei para o chefe e para a empresa. A vida estava boa de mais para ser levada a sério. Eu não perderia mais o meu tempo sendo um cara tão sério, não leria mais filosofia, tampouco usaria aquele óculos ridículo. Estou pensando em virar surfista, pois as frases deles não têm mais que duas palavras e o meu vocabulário está ficando restrito. Sóóóóó, manêro.

Claudio R. é o escritor de O Ladrão de Palavras.

enviada por O Ladrão de Palavras






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